terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Ele


Ele está só na multidão

Seu olhar é firme e resoluto,
mesmo quando as lágrimas lhe escorrem
por entre as rugas do tempo e da dor.
Carrega no corpo as cicatrizes de muitas feridas.
As do coração, ele as cerziu com as próprias mãos.
Na velha mochila estão as sobras da última crença.
Ele nada pede, nem espera.
Maior que as palavras é o mistério do silêncio.
Estar só é comungar com o íntimo do mundo.

(alvaro,2010)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Carpe diem, Baudelaire



Descobri Charles Baudelaire numa edição resumida de As Flores do Mal, nas antigas e saudosas Edições de Ouro, da Tecnoprint Gráfica. Como se tratava de uma seleção, os editores a intitularam, muito apropriadamente, "Flores das Flores do Mal".

Tradução esmerada do "príncipe dos poetas", Guilherme de Almeida. Aliás, fiquei tão viciado nessa tradução, que jamais consegui gostar de outra. (Dá-se também com o Corvo, de Poe. Para mim, só Milton Amado, cuja tradução deixa "no chinelo" Fernando Pessoa, Machado de Assis e outros monstros sagrados).

Comparando com outras traduções, fica-me a certeza que Guilherme, melhor que os demais, conseguiu haurir o sumo, a seiva, o estro da poética sepulcral de Baudelaire. E a dedicatória que faz "à Lingua Portuguesa" , na apresentação da edição, é algo simplesmente inesquecível e que assim se encerra:

"À minha senhora e escrava,
senhora que amo e escrava que castigo,
à doce e rude Língua Portuguesa dedico
estas doentias flores alheias
que tentei fazer suas"...

"Doentias flores alheias" ... sim, doentias são as flores de Baudelaire ... flores do mal ... plantas carnívoras ... Sua poesia não quer encantar, quer chocar, machucar, ferir... Suas imagens são ácidas, cruas, cortantes, e mesmo quando fala da Beleza ele o faz como um carrasco que espera o condenado, empunhando a lâmina afiada.

Baudelaire namora a morte; sua poesia, não raro, rescende a cemitério, e ele faz amor dentro de um jazigo.

"O namorado arfante, enleando sua bela,
parece um moribundo acariciando a tumba".

"Hino à Beleza" é, para mim, a melhor flor de suas Flores do Mal.

"Que tu venhas do céu ou do inferno, que importa,
Beleza, monstro horrendo e ingênuo,
se de ti vem o olhar, o sorriso,
os pés que abrem a porta de um infinito
que eu amo e jamais conheci?"

Diante da Beleza "monstruosa" que Baudelaire proclama, até o Destino se curva:

"Sobes do abismo negro ou despencas de um astro?
O destino, servil, te segue como um cão,
semeias a desgraça e o prazer em teu rastro,
governas tudo e vais sem dar satisfação"

Para Baudelaire, não importa se essa beleza vem de Deus ou de Satã, não importa se é um anjo ou uma sereia, desde que seja capaz de tornar "a vida menos feia e os instantes mais breves".

Todos os poemas dessa edição parecem ter o propósito de advertir, seja essa advertência explícita ou velada: Não se contenham, não reprimam os anseios do coração. Porque a vida é curta, a morte é certa...

Leio Baudelaire e me recordo do aviso do Harpista egípcio que, milhares de anos atrás, recomendava ao seu senhor que alegrasse seu coração, que perfumasse o corpo com as essências mais caras, que untasse os cabelos com os óleos mais finos, que satisfizesse todos os seus desejos ... antes que chegasse "o dia da lamentação".

Fica aqui, pois, meus amigos, o recado e a advertência de Baudelaire: Carpe Diem enquanto lhes é possivel fazê-lo. Para que se não lhes abata, amanhã, um remorso póstumo:

"- E o verme te roerá como um remorso atroz."

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Alvaro Rodrigues (2009)

sábado, 31 de outubro de 2009

Tempestade amazônica



Para o Norte eu cavalguei
no mais ásperos dos ventos
Observei rios, estradas e florestas.
Estive onde anjo algum ousou pousar.

Encontrei o trono
da privação,
do carecer,
do querer sem ter.

Temor e frio se ergueram
com suas asas de espinhos de veludo.
As ordas das trevas vibraram,
ressoando o canto dolente
de um pássaro moribundo,
espalhando cinzas de música
na tempestade amazônica
que eu respiro e devoro,
sempre clamando,
sempre rasgando
sempre caindo ...


(agosto/2009)

sábado, 14 de março de 2009

Cansaço



É preciso amar a vida e vivê-la plenamente hoje, como se não houvesse amanhã.

Mas há dias em que a vida semelha um fardo, que carregamos às costas, arrastando-o pela estrada longa e pedregosa que leva a lugar nenhum. É, então, que somos tomados pelo cansaço, um enorme e profundo cansaço, que se instala e avassala os recônditos da alma.

Andamos em círculos. De onde parece germinar a luz nova de um farol, acabamos por descobrir a velha e abusada candeia, com seu brilho mortiço e vulgar.

O dia se abre no enfrentar dos problemas de sempre, todos miseravelmente iguais. Resolvê-los não nos gratifica, apenas garante que amanhã estaremos na trincheira, outra vez, para voltar a enfrentá-los.

Uma das desvantagens de acumular muitos anos é a perda inexorável de qualquer tipo de inocência. Cada vez se torna mais dificil gozar a volúpia da descoberta de algo realmente novo, diferente, desconhecido. Tudo vai tomando um gosto de usado, de repetido e, não raro, de medíocre.

Lidar com o que é pequeno e vulgar nos torna mais cansados e desalentados. Aturamos os que chafurdam na vaidade comesinha, dispostos a descer aos porões da indignidade, em troca de minúsculas posições de prestígio e poder, enquanto nossos olhos, quase em desespero, buscam o longe, a miragem, o fascínio dos grandes desertos.

Ao cabo de dias como esses, felizes os que, ao menos, dispõem de um colo macio onde repousar a cabeça cansada e deprimida.

- Alvaro Rodrigues (agosto de 2008)
  

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Adeus, Max



O Pará, o Brasil, a Poesia, perderam Max Martins, que deixou este mundo e partiu para outras paragens, no final da tarde de uma segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009.

Max nasceu em Belém do Pará em 1926. Exerceu vários cargos públicos até o momento de sua aposentadoria, a qual o Inamps incorporou outra: a de escritor, no primeiro caso de alguém que recebe benefícios de aposentadoria por ter exercido, por mais de trinta anos, a poesia.

Lançou seu primeiro livro, "O Estranho", em 1952 (edição do autor), que refletia (segundo o que dele escreveram alguns críticos) a percepção, mesmo que tardia, do modernismo, principalmente da musicalidade de Cecília Meireles e do coloquialismo estilizado de Carlos Drummond de Andrade e Mário Faustino.

A influência de Faustino é ainda mais nítida em "Anti-retrato" (1960), sobretudo na forma de construção da poesia.

"Já é tudo pedra,
os dias, os desenganos.
Rios secaram neste rosto, casca
de barro, areia causticante".

Esse apereiçoamento do projeto de escrita demoraria uma década para voltar a se expressar, com "H'Era" (1971), onde, ao lado da exercida por poetas nacionais, nota-se a influência de escritores estrangeiros, como Dylan Thomas, William Alden e Henry Miller:

"Palavras famintas pedem bis, e o X
de Hamlet e Henry Miller me visava;
velhas rezavam, se revezavam
em cantos, panos, palinódias".

Em "O Risco Subscrito" (1976), seus poemas  ganham um tom mais universalizante e a preocupação com a linguagem se torna o próprio assunto do poema, estabelecendo uma nova relação formal com o espaço em branco da página, no que (meu ex-professor universitário) Benedito Nunes, na apresentação da obra, chama de "ensaio de espacialismo":

"o olho
do ovo

o ovo
do olho".

Em "Caminho de Marahu" (1983), Max percorre a trilha dos temas eróticos, que ele transforma em objeto de investigação e crítica, associando a natureza da pesquisa de linguagem à natureza do desejo sexual:

"O branco apaga tudo - as cores deste gozo
E o próprio gozo,
neste poço,
cala
o som da água".

Em 1993, Max Martins foi agraciado com o prêmio de poesia Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra ("Não para Consolar"), cuja  maioria foi traduzida para o alemão, inglês e o francês.

Tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente à época que ministrei um curso sobre "Dinâmica da Comunicação", na fundação cultural "Casa da Linguagem", que ele fundou e dirigiu entre 1990 e 1994. Além do grande poeta que todos reconheciam, não demorei a me dar conta de estar lidando com alguém de imensa sensibilidade diante da vida e de uma extrema generosidade afetiva. Ou seja, alguém que sentimos prazer em conhecer.


Obras de Max Martins

O Estranho (1952)
Anti-Retrato (1960)
H'Era (1971)
O Ovo Filosófico (1976)
O Risco Subscrito (1980)
A Fala entre Parêntesis (com Age de Carvalho, à moda da renga, 1982)
Caminho de Marahu (1983)
60/35 (1985)
Poema-cartaz Casa da Linguagem (1991)
3 Poemas - folder com desenho, colagem (1991)
Marahu Poemas (1985)
Para ter onde Ir (1992)
Não para Consolar - poesia completa (1992)
 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Adeus



Se você me encontrar pela rua
não precisa mudar de calçada
Faz de conta que somos estranhos
e que nunca entre nós houve nada

Não precisa baixar a cabeça
pra não ver os meus olhos nos seus.
Passarei por você sem rancor, sem lembrar
que entre nós houve adeus.
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Adeus 2008, um ano de muita luta,  algumas promessas e vários desencontros. 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

CLARICE





Jamais consegui pensar em Clarice Lispector como (apenas) uma mulher. Ela sempre me pareceu alguém que transcende o gênero e se situa naquele andar-de-cima onde homens e mulheres deixam de sê-lo e se (con)fundem no estado pleno, ainda que impreciso, do Ser.

Foi no tempo em que eu buscava, estudando na Universidade, me tornar um historiador, que descobri Clarice em “A paixão segundo GH”, pouco depois dessa obra chegar às livrarias.

Assim começou nosso namoro mórbido (nem poderia deixar de ser mórbido, em se tratando dela), que eu condimentava com a poesia de Baudelaire.

Mas foi em “Perto do coração selvagem” que a tornei minha amante, mesmo sabendo que ela me seria uma amante infiel, posto que  jamais seria para ela o que ela se tornara para mim. E quando me perguntava a causa dessa atração fatal, me vinha sempre a mente a frase dela que se me tornara querida: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”.

Por um bom tempo, acreditei (ou desejei) que aquilo que desejava, mesmo sem conseguir defini-lo, eu encontraria em Clarice. E se, não raro, deixava de entender o que ela escrevia, não me sentia abatido ou frustrado, antes pelo contrário, até porque “...entender é sempre limitado, mas não entender pode não ter fronteiras.”. Se ela confessava ser “...muito mais completa, quando não entendo”, eu fazia minhas suas palavras e tentava me satisfazer com isso.

Àquele tempo, eu também estava em processo de “coser pra dentro”, mas ardia de desejo voluptuoso de correr  descalço sobre o asfalto escaldante, despindo-me sempre que relampejava, para que nenhum trecho de meu corpo deixasse de ser molhado pelo temporal que haveria de vir.

Se Joana olhava as galinhas e pensava nas minhocas (há quem prefira observar formigas);eu me entregava a observar pessoas, buscando nelas aqueles pontos-de-contato comigo, aquilo que (segundo me fora ensinado) nos tornava iguais, irmanados na mesma condição humana. Mas as observava de longe, porque me parecia poder perceber melhor do que chegando perto (Caetano diria, bem depois, que “de perto ninguém é normal”).

Chegar perto de Clarice, tentar entender aquele quarto escuro (terror das crianças) onde ela existia ... nem pensar. Ninguém o conseguiria. Aliás, nem ela mesma: “Com todo perdão da palavra, eu sou um mistério para mim”.

Uma imensa geografia brasileira me separava dela, mas ainda que vivêssemos na mesma cidade e me fosse dado conhecê-la pessoalmente, acho que haveria de preferir me manter distante. Podia amá-la,  mas sabia que não conseguiria conviver com aquela mulher “irritável”, aquela senhora das palavras (arma terrível se usada para ferir).

Quando eu transava com Clarice, no leito dos livros que ela escrevia, por vezes a flagrava numa mentira. Todavia isso não me incomodava. Todo escritor (poeta ou romancista) precisa mentir, porque a mentira (ou uma “verdade inventada”) é inerente à criação. Por isso, quando ela dizia que gostava “de um modo carinhoso” do “malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça”, eu não a levava a sério. O alçapão de um escritor é se deixar seduzir pelas próprias palavras, sobretudo quando sugerem imagens impressionantes.

Então chegou o dia em que senti necessidade de fazer de toda a angústia existencial presente no mundo interior de Clarice (e no meu), plataforma para um “estar no mundo”  
Diante de “... enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever”, eu começava a preferir o dizer indignado de José Régio: “Se o que busco saber, ninguém me responde, por que me repetis: Vem por aqui?”

Estar com Clarice fazia de mim alguém ainda mais solitário do que sempre fui e, de repente, a frase de um cartaz numa passeata estudantil  -  “Só sente solidão quem não participa das lutas de seu tempo”  -  me sacudia para a realidade de minha época. Época de angústias mais concretas, expressa em gritos dos torturados nos porões da Ditadura Militar. Sem deixar de sentir, eis que se impunha fazer, por pouco que fosse, porém mais do que apenas vociferar contra a injustiça e a tirania, em mesas de bar regadas a “Cubra Libre”.

Aposentei Clarice em minha biblioteca. Não li seu último livro, “A hora da estrela”, agora tratado como seu romance mais famoso.  Como a amante que um dia acampou em meu coração e de lá nunca se foi inteiramente, eu a conservo como uma relíquia de meu passado, uma dentre outras saudades que eu, às vezes, gosto de ter.

Porém, mesmo tendo oficiado nossa “cerimônia de adeus” (parodiando Simone de Beauvoir),  nunca deixei de cultivar uma certa “claricefilia”. De alguma forma, ela se manteve sempre perto do meu “coração selvagem”. 
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Alvaro Rodrigues (nov/2008)

Publicado, originalmente, em "Cultura & Humanismo"
http://culturahumana.ning.com/group/clarice

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Belém 50


Numa tarde chuvosa na Belém dos anos 50, o fotógrafo registra a passagem, pelo Largo de São Brás,  de um ônibus construido no formato do dirigível alemão, Zeppelin.
 
Eram dois esses ônibus-zeppelins, percorrendo uma linha circular, um no sentido inverso ao outro.

Nunca houve ônibus como esses em nenhuma outra cidade do país.



O ônibus-zeppelin e uma carrocinha de leite,  usada pelos donos de vacarias, geralmente portugueses, para distribuir o produto de casa em casa, em garrafas (litros) de vidro deixadas nas janelas das residências, antes do alvorecer e no início da tarde.
 

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Gênio de concreto



Oscar Niemeyer é um dos símbolos (hoje diríamos, "ícones") culturais de minha geração. Um monumento do qual partilhamos a glória e que nos faz sentir orgulhosos de ser brasileiros.

Seu olhar distante e prescrutador, sua voz morna, pronunciando cada palavra separadamente (que o tempo foi tornando ainda mais pausada), podem enganar o observar incauto, que talvez não perceba, por trás delas, a firme determinação de um homem que sempre se manteve irredutivelmente fiel às suas convicções.

Marxista-leninista "de carteirinha", seu discurso político é, ainda hoje, exatamente o mesmo que um comunista fazia na metade do século XX - o que lhe confere uma certa condição anacrônica. No correr dos anos 80, quando Luís Carlos Prestes já pouco representava em nosso cenário de possibilidades políticas, lí uma entrevista dele onde, referindo-se a Prestes, ele não relutava em afirmar: "
Para mim, ele é o que sempre foi: o nosso Cavaleiro da Esperança" (referência ao título de um livro de Jorge Amado.

Niemeyer é um homem simples, que sempre negou a si mesmo a condição de gênio que os outros lhe atribuiram. Ao lhe indagarem sobre sua obra, ele responde, quase sempre: "
Eu apenas tiro aproveito das possibilidades maleáveis do concreto".

Ora, o que é um gênio senão aquele que sabe, melhor que os outros, identificar e aproveitar as "possibilidades" do meio em que atua?

Muitas são as obras que sua inteligência iluminada produziu, ainda que nem todas possam ser consideradas "geniais". Há mesmo quem não aprecie algumas delas. Em minha terra, Belém, é dele o "
Monumento da Cabanagem", que se insere no conjunto de suas "obras menores". Jocosamente, alguns paraenses referem-se ao monumento como "Niemeyer de porre".

A primeira vez que visitei Brasilia, mais do que os prédios da Praça dos 3 Poderes, eu quis ver de perto a igreja e, principalmente, o Memorial JK, então recém inaugurado. Neste, experimentei uma emoção que até hoje se mantem pulsante em mim. Foi na sala do esquife. Aqueles espaços amplos (para receber muitos visitantes), aquela luz mortiça, mal refletida nas paredes de granito negro, ovaladas e absolutamente nuas... como nua é toda a sala. Nada, além do esquife imponente, assentado no centro, e tendo apenas uma inscrição: "O Fundador". No silêncio daquele lugar prenhe de evocações, parece que se ouve o uivo distante do Tempo, ecoando na Eternidade.

Hollywood fabricou seu "Oscar" - uma estatueta para premiar os melhores do Cinema - que cineastas brasileiros, de mentalidade colonizada, aspiram um dia ganhar.
Não precisamos da estatueta yankee.
Temos um "Oscar" vivo: temos Oscar Niemeyer.
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(Alvaro Rodrigues/2008). Texto publicado, originalmente, em "Cultura & Humanismo"
http://culturahumana.ning.com/group/oscardaarquitetura
 
  

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Poema egípcio

 Até onde se sabe, foi no período do Novo Império que surgiram os primeiros poemas de amor egípcios. Evidentemente, eles não tinha a forma lírica que nós conhecemos, nem eram rimados. Talvez tivessem um "ritmo", mas é difícil saber, porque desconhecemos qual era a pronúncia real da língua.
A linguagem era simples e direta, retratando a fala de um ou outro dos amantes, ou de ambos alternadamente, ou ainda de uma terceira pessoa, o "poeta". O poema seguinte, escrito por volta de 1300 a.C.,  faz parte do Papiro Harris 500, guardado no British Museum:

 
Ele:
É uma bebida inebriante para mim o ouvir a tua voz,
oh, magnífica do meu coração.
Vem. É a hora da eternidade que nos chega.

Ela:
Meu coração fica em suspenso quando estou em teus braços,
oh, dono do meu corpo,
e tu fazes aquilo que se espera.
Oh, sim, é doce a hora da eternidade.

   

domingo, 26 de outubro de 2008

Bênção celta


 

Voa Liberdade



(Desligue a música de fundo do blog, antes de acionar o vídeo)
 
VOA LIBERDADE
Composição: Mário Maranhão - Eunice Barbosa - Mário Marcos
Intérprete:   Jessé

Bezerra de Menezes - O médico dos pobres

  
Adolfo Bezerra de Menezes nasceu na antiga Freguesia do Riacho do Sangue (hoje Jaguaretama), no Estado do Ceará, no dia 29 de agosto de 1831.
No ano de 1838 entrou para a escola pública da Vila do Frade, onde, desde cedo revelou sua fulgurante inteligência. Com apenas 11 anos de idade já iniciava o curso de Humanidades e, aos 13 anos, conhecia tão bem o latim que ele próprio o ministrava aos seus companheiros, substituindo o professor da classe em seus impedimentos. Concluídos os estudos em sua terra natal, partiu para o  Rio de Janeiro, a fim de seguir a carreira que sua vocação lhe inspirava - a Medicina. 
   
Em novembro de 1852,  ingressou, como praticante interno, no Hospital da Santa Casa de Misericórdia. Doutorou-se em 1856, pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Em 1858, concorreu a uma vaga de lente substituto da Seção de Cirurgia da Faculdade de Medicina. Nesse mesmo ano, o mestre Manuel Feliciano Pereira de Carvalho, então Cirurgião-Mor do Exército, chamou-o para ser seu assistente, com o posto de Cirurgião-Tenente. 
  
Eleito vereador municipal pelo Partido Liberal, em 1861, teve sua eleição impugnada pelo chefe conservador Haddock Lobo, sob a alegação de ser médico militar. Com o objetivo de servir o seu partido, que necessitava dele para ter maioria na Câmara, resolveu afastar-se do Exército. Em 1867, foi eleito Deputado Geral, tendo ainda figurado numa lista tríplice para o Senado. 
Mas sua carreira política foi efêmera. Alvo de rudes campanhas de injúria, por parte de seus adversários, deliberou afastar-se da vida pública e dedicar-se a empreendimentos empresariais. Criou a Companhia Estrada de Ferro Macae-Campos, na então província do Rio de Janeiro. Posteriormente, empenhou-se na construção da via férrea de Santo Antônio de Pádua, pretendendo levá-la até o Rio Doce, desejo que não conseguiu realizar. Foi um dos diretores da Companhia Arquitetônica que, em 1872 abriu o Boulevard 28 de Setembro , no então bairro de Vila Isabel. Em 1875, foi presidente da Companhia Carril de São Cristóvão. 
  
Voltando a política, foi eleito vereador em 1876, exercendo o mandato até 1880. Foi ainda presidente da Câmara e Deputado Geral pela Província do Rio de Janeiro, no ano de 1880.aos pobres, repartindo com os necessitados o pouco que possuía. Conciliava essas atividades com um intenso trabalho assistencial em favor dos pobres, a quem procurava levar o conforto de sua palavra de bondade, o recurso da sua profissão de médico e o auxílio da sua bolsa generosa. 
Quando o Dr. Carlos Travassos empreendeu a tradução de "O Livro dos Espíritos", de Allan Kardec, ofereceu um exemplar, com dedicatória, a Bezerra de Menezes. No dia 16 de agosto de 1886, um auditório com cerca de duas mil pessoas da melhor sociedade, que enchia o salão de honra da Velha Guarda, ouviu, em silêncio, a palavra vibrante do eminente político e médico, proclamando sua plena adesão ao Espiritismo. E desde então, passou a escrever artigos em defesa do aspecto religioso da doutrina kardecista.
Demonstrada a sua capacidade literária no terreno filosófico, quer pelas réplicas, quer pelos estudos doutrinários, a Comissão de Propaganda da União Espirita do Brasil incumbiu Bezerra de Menezes de escrever, aos domingos,  em "O Paiz" , tradicional órgão da imprensa brasileira, dirigido por Quintino Bocaiúva, uma série de artigos sob o título "O Espiritismo - Estudos Filosóficos",  assinado sob o pseudônimo de Max. Esses artigos marcaram a época de ouro da propaganda espírita no Brasil, sendo publicados, ininterruptamente, de 1886 a 1893. 
Bezerra de Menezes tinha o encargo de médico como verdadeiro sacerdócio. Por isso, dizia que "Um médico não tem o direito de terminar uma refeição, nem de escolher hora, nem de perguntar se é longe ou perto, quando um aflito qualquer lhe bate a porta. O que não acode por estar com visitas, por ter trabalhado muito e achar-se fatigado, ou por ser alta noite, mau o caminho ou o tempo, ficar longe ou no morro o que, sobretudo, pede um carro a quem não tem com que pagar a receita, ou diz a quem chora a porta que procure outro, esse não é médico, é negociante de medicina, que trabalha para recolher capital e juros dos gastos da formatura. Esse é um infeliz, que manda para outro o anjo da caridade que lhe veio fazer uma visita"
Em 1893,  a convulsão provocada no país, pela "Revolta da Armada", provocou o fechamento de todas as sociedades espíritas. No Natal do mesmo ano, Bezerra encerrava a série de artigos que vinha publicando em "O Paiz" .
Em 1894, o ambiente demonstrou tendências de melhora e o nome de Bezerra foi lembrado como o único capaz de unificar a família espírita. O infatigável batalhador, com 63 anos de idade, assumiu a presidência da FEB, cargo que ocupou até 11 de abril de 1900, quando faleceu, vítima de violento ataque de congestão cerebral.
   
Devido ao seu espírito caridoso e prestativo, Bezerra de Menezes até hoje é lembrado como O Médico dos Pobres . 

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Na fonte clara


(Desligue a música de fundo do blog, antes de acionar o vídeo)

A la clair fountaine
Música infantil francesa, absolutamente sublime.
As imagens são cenas finais do filme "O Despertar de uma Paixão" (The painted Vei), co-produção EUA/China, de 2006, baseada na novela de William Somerset Maugham.

A la claire fontaine 
M’en allant promener
J’ai trouvé l’eau si belle 
Que je m’y suis baignée 

Il y’a longtemps que je t’aime  
Jamais je ne t’oublierai

Sous les feuilles d'un chêne
Je me suis fait sécher
Sur la plus haute branche
Le rossignol chantait 

Il y’a longtemps que je t’aime
Jamais je ne t’oublierai

Chante, rossignol, chante
Toi qui as le cœur gai
Tu as le cœur à rire
Moi je l’ai à pleurer

Il y’a longtemps que je t’aime
Jamais je ne t’oublierai

J’ai perdu mon ami
Sans l’avoir mérité
Pour un bouquet de roses
Que je lui refusais

Il y’a longtemps que je t’aime
Jamais je ne t’oublierai 


Je voudrais que la rose
füt encore au rosier
et que mon douce ami 
füt encore à m´aimer

Il y’a longtemps que je t’aime
Jamais je ne t’oublierai