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terça-feira, 23 de setembro de 2008

Sexo e Cristianismo

 Impressionados pela liberalidade sexual e vocação orgiástica da elite romana,  os apologistas dos primeiros tempos do Cristianismo, inspirados pelos solitários eremitas e anacoretas, inauguraram uma política de completo repúdio ao sexo. Esse radicalismo - enfatizado pelas epistolas Paulinas - acentuou-se pela prática da abstinência carnal, transformando-se num atrativo tão forte para novos seguidores como o martírio dos crentes nas arenas romanas. 

Havia muito simbolismo atrás disso tudo. Não só a busca da perfeição atrás do "coração simples", mas uma nova visão do ser humano, na qual ele somente poderia manter-se na frescura com que saiu das mãos do criador, permanecendo puro ou intocado. 

O problema que enfrentavam os pregadores da nova fé era em relação ao casamento: como conseguir manter um dos princípios básicos do cristianismo, aceitos na forma do "crescei e multiplicai-vos", sem considerar a atração ou o prazer sexual?

Tentando resolver esse conflito, Agostinho, bispo de Hipona, no norte da África, terminou por gerar sua doutrina sobre o casamento, o sexo e a privação carnal. Donde viria - indagava ele - essa miséria que nos cerca, essa corrupção, essas heresias e a crassa maldade? Existia na sociedade - concluiu ele - uma mancha inapagável motivada pelo pecado original advindo do impulso sexual, que atormentava o homem até a morte. Essa era a maldição que acompanhava Adão e Eva e seus descendentes, desde a queda do Paraíso. 
  
Para Agostinho, foi a partir da danação dos nossos pais primevos que essa desgraça começou. Parecia-lhe que o casamento, a relação sexual e o Paraíso eram tão incompatíveis como o Paraíso e a Morte. Desse modo, a sexualidade permanecia como o indicador da queda do homem, do seu triste declínio da anterior situação angelical, fazendo com que deslizasse para baixo, para a natureza física, e desta para a sepultura. Aceitava que os casais deveriam gestar filhos, mas que o fizessem conscientes de estarem cometendo um ato de rebaixamento. Era algo necessário mas humilhante, que deveria ser praticado sob os acordes de uma intensa melancolia.

Dessa forma, Agostinho introduziu entre os cristãos uma definitiva nódoa de consciência culpada quando faziam sexo ou tinham sentimentos e impulsos prazerosos. Trouxe para dentro dos lares e para os leitos conjugais uma sombra de coisa maligna, de impureza, perversão e vício, que arruinou a vida de incontáveis casais, para quem o sexo passou a ser associado a um "presente do demônio", ou um discordium malum, um princípio de discórdia alojado no interior de cada um desde a Queda. 

Talvez uma das maneiras de entender-se essa obsessão de Agostinho em denunciar a sexualidade deve-se a ele ter sido um renegado do erotismo. Como todo abjurado das suas paixões sensuais pregressas, votou intenso ódio ao que, no passado, o atraiu, lamentando ter desperdiçado nele tanta energia. Ele mesmo não negou ter sido dominado na sua juventude por uma intensa voluptuosidade, pela lasciva, ao ponto de que, em determinado momento, quando pediu a Deus que o fizesse casto, acrescentou... "mas não ainda!"

                         Agostinho: de devasso a carrasco do sexo                        

Agostinho explicava a maldade como resultante desse tumor sensual e dissoluto existente em todos nós, provocador de uma desordem crônica nas nossas relações, que o tempo inteiro nos perturba com suas poluções, com seus sonhos inconvenientes, incestuosos e inconfessáveis. 
 
Foi contra isso que se mobilizou seu rival, Juliano, bispo de Eclanum que, depois de 418, embrenhou-se numa ruidosa polêmica com ele. Juliano mostrou-se indignado com as acusações de Agostinho ao sexo e ao casamento. Não podia conceber - explicou ele - que o ato necessário à nossa reprodução fosse algo demoníaco ou ter que ser praticado sobre o véu da vergonha e do enxovalhamento. Afinal, eram "impulsos do nosso corpos feitos por Deus". Nada poderia haver de sinistro numa relação sexual bem realizada e completa. Bem ao contrário, viu-a natural, saudável, como "o instrumento de eleição de qualquer casamento.... merecedor de censura apenas em seus excessos." 
  
Em várias cartas da sua imensa correspondência, Agostinho tentou amenizar as objeções de Juliano, procurando mostrar-se menos radical do que nos seus escritos anteriores. Porém, sabe-se que, para a posteridade, foi essa sua visão trágica da existência - de sermos os infelizes portadores perpétuos do pecado capital - (de origem paulina-agostiniana), que iria marcar, de uma maneira definitiva, o Cristianismo. 

E o sexo ficou, dali para sempre, visto como uma transgressão, como uma obscenidade... quiçá um ardil satânico para atormentar infinitamente a existência humana.

As freiras de Loudun


No  famoso caso da Freiras de Loudon, acontecido em 1633, Urbain Grandier aparece como o grande vilão. Afinal, ele era a autoridade superior daquela paróquia e andava envolvido em escândalos sexuais. 
  
Quando as freiras do Convento de Loudun apresentaram sintomas de possessão, ou histeria, o padre foi acusado de magia negra: o povo acreditava que ele era o responsável pelos fenômenos e o inquérito apurou que Grandier estaria associado a dois demônios, Asmodeus e Zabulon, para produzir os ataques.
  
Sessenta testemunhas fizeram acusações de adultérios, sacrilégios e outros crimes cometidos mesmo em recintos sagrados, dentro da Igreja.
 
O processo de Urbain Grandier foi marcado por contradições. 
Várias religiosas retiraram as denúncias e revelaram terem sido "instruídas" por superiores. 
  
O réu afirmou sua inocência, mesmo submetido a torturas, e manteve esta posição até o momento final, na fogueira. 
  
Nos meses seguintes à morte de Grandier, vários de seus acusadores morreram vitimados por doenças misteriosas e as freiras continuaram a padecer de convulsões.   

PACTO DE GRANDIER   

No processo jurídico-eclesiástico contra Urbain Grandier, acusado de enfeitiçar as freiras de Loudun, consta que uma cópia do pacto, um documento escrito foi encontrado entre os papéis do réu, devassados depois de sua prisão. 
  
O costume de formalizar tais pactos por escrito foi instituído a partir do século XII (anos 1.100); até então, a maioria dos "acertos" com o Diabo era feita oralmente, na base da confiança mútua na palavra. O trato mais comum garantia que riquezas e honras seriam providenciados pelo Demo que, em paga, receberia a alma do feiticeiro depois de sua morte. 
 
O contrato estipulava um prazo para o desfrute das benesses; findo o prazo, o cobrador infalivelmente apareceria para cobrar o preço acertado. 

O "contrato" de Grandier ainda existe. Foi redigido em latim, da esquerda para direita, assinado com sangue, por mais de um demônio, e se encontra na Bibliothèque Nationale, em Paris. Diz o texto: 

Meu Senhor e Mestre, tenho-o como meu Deus; prometo servi-lo enquanto viver e, desde esta hora, renuncio a todos os outros deuses e Jesus Cristo e Maria e todos os Santos do Céu e à Igreja Católica Apostólica Romana e a todo o bem e preces que possam ser feitos por mim. Prometo adorá-lo e prestar-lhe homenagem pelo menos três vezes por dia e fazer o máximo de mal possível e levar ao mal tantas pessoas quanto possível; renuncio de coração ao Cristo, ao batismo e a todos os méritos de Jesus Cristo; no caso de desejar mudar, dar-lhe-ei meu corpo e minha alma e minha vida como garantia, tendo entregue tudo isso para sempre sem qualquer vontade de arrependimento. Assinado: Urbain Grandier, com seu sangue.  


O pacto diabólico (Bibliothèque Nationale, em Paris)
 

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Lilith, a primeira mulher de Adão


Quem se debruça atentamente sobre o texto do Gênesis para ler o mito hebraico da criação do Homem, há de perceber a presença de duas narrativas distintas. No capítulo 1 do livro, IHWH cria, no "último dia da Criação", o primeiro casal de humanos: homem e mulher são criados juntos, num mesmo momento, da mesma maneira. No capítulo 2, o homem é criado primeiro, enquanto a mulher só nasce posteriormente, a partir de uma costela do macho.

Alguns estudiosos judeus tentaram explicar a contradição sugerindo que o Gênesis mostra ter havido duas criações: na primeira, IHWH criou os seres humanos em geral; na segunda, criou um homem especial, seu predileto, do qual derivou a "raça adâmica", ou seja, os hebreus. Mas os historiadores que pesquisam a chamada História Bíblica, preferem identificar nessa incongruência a presença de duas fontes diferentes, que se teriam amalgamado no Livro do Gênesis.

Essa é uma explicação razoável e muito se poderá dizer em seu favor. Mas há outra possibilidade, não menos aceitável, que dispensa o apelo a uma "segunda fonte".

MUTILAÇÃO DE UM MITO
Da mesma forma como um fato real pode vir a se converter em um mito, por força de metamorfoses que a transmissão oral produz na história original, o próprio Mito pode também ser vítima de mutilação, mediante acréscimo, modificação ou supressão.

Encontramos um bom exemplo desse processo na lenda do Rei Artur.Muito provavelmente, a saga desse herói deriva de um personagem real, que teria vivido na Bretanha, nos obscuros anos de transição entre o domínio romano e o estabelecimento dos reinos anglo-saxões.

Todavia seus feitos foram fantasiados de tal modo que o "Artur histórico" se perdeu e, hoje, é uma tarefa talvez impossível (ainda que fascinante) tentar resgatá-lo.

INCOERÊNCIA
Diz o Gênesis em seu capítulo 1, que o Deus Eterno (IHWH), após ter criado o céu, a terra, as estrelas, etc, cria os seres viventes: os peixes, as aves e os animais, segundo a sua espécie. A todos eles dá um comando: "Frutificai e multiplicai", o que implica em acasalamento e reprodução. Infere-se, portanto, que esses seres foram criados aos pares: macho e fêmea, de cada espécie.

Com o Homem não é diferente. No "dia sexto", ele é criado, à imagem de Deus segundo a sua semelhança, cabendo-lhe frutificar, multiplicar-se, encher a terra e subjugá-la. Neste ponto, o Gênesis é explícito: "... à imagem de Deus o criou; macho e fêmea criou-os".
O primeiro capítulo do livro se encerra com IHWH vendo que era bom tudo quanto havia feito. E até então, a narrativa apresenta-se coerente.

A incoerência se instala no capítulo 2. Além de esclarecer que "formou o Eterno Deus ao homem, pó da terra (2), e soprou em suas narinas o alento da vida", Gênesis diz que, inicialmente, apenas o macho humano é criado e colocado no Jardim do Éden, contrariando a lógica contida no capítulo anterior. A fêmea só aparece na narrativa quando IHWH se dá conta de que não é bom que esteja o homem só (3). Então, fazendo-o cair em um sono pesado, toma-lhe uma de suas costelas (Gn 2,21) e dela faz a mulher.

Mas essa incoerência pode ser apenas aparente, se admitirmos que entre o primeiro e o segundo relato houve supressão de uma parte da narrativa, que a tornava coerente.
Que parte era essa? O que ela continha?

PERGUNTAS INCÔMODAS
Quando IHWH criou Eva, da costela de Adão, e a levou ao homem, este a recebeu dizendo:"Esta vez é osso dos meus ossos e carne da minha carne" (Gn 2,23).

Esta vez ...? Por que "ESTA vez"? Teria havido uma OUTRA vez? Teria havido uma vez em que a mulher não era "osso dos meus ossos e carne da mnha carne"? Em outras palavras, teria havido uma mulher que não fora feita a partir do homem?

Ora, se IHWH decidiu criar o homem só (apenas o macho da espécie), por que resolveu, depois, dar-lhe uma companheira, contrariando seu próprio designo original?
Por que IHWH refletiu que "não é bom que o homem esteja só" (Gn 2,18), após tê-lo assim criado, se ao cabo dos 6 dias da Criação, ele (IHWH) havia visto tudo quanto fizera "e eis que era muito bom" (Gn 1,31) ?
Como seria possivel ao homem, sem a fêmea de sua espécie, cumprir a ordem divina: "frutificai e multiplicai-vos" ?

Essa perguntas parecem ser irrespondíveis, salvo se nos despreendermos do enfoque apriorístico que costumamos aplicar ao estudo do Gênesis.

Vamos, pois, colocar a questão de outra forma, enfocando-a sob outro prisma.Podemos começar nos perguntando: E se, na verdade, IHWH jamais tenha criado o homem só? E se jamais tenha pretendido que ele (o homem) ficasse só?

É preciso observar que Gênesis 2,18 não diz que o homem ERA só; diz que ele ESTAVA só.
O fato do homem estar só, não implica, necessariamente, que ele tenha estado sempre só, pois sua solidão poderia ser circunstancial, expressando uma condição de momento. Logo, poderia ter havido um tempo, anterior àquele, em que o homem não estava só.

RESPOSTA CHOCANTE
Se antes ele não estava só, haveria o homem de ter tido uma companheira.Mas que companheira seria essa, se a primeira mulher só foi criada depois, a partir da costela do homem, ou seja, osso de seus ossos e carne de sua carne?

A resposta é óbvia.A mulher (Eva) que IHWH criou, a partir da costela de Adão, não foi a primeira companheira do homem.Houve uma anterior a ela, e que foi, verdadeiramente, a primeira mulher.

Uma mulher criada antes de Eva ? Quem? Só pode ser aquela que foi criada junto com o homem, no dia sexto da Criação, conforme descrito em Gênesis I: "Macho e fêmea os criou".Essa mulher não era Eva. Era outra.

Por isso Adão, ao receber Eva, exclama: "Esta vez é osso dos meus ossos e carne da minha carne". Isso porque a primeira mulher que recebeu não era osso de seus ossos nem carne de sua carne. Não fora criada a partir dele, mas do mesmo modo que ele, do "pó da terra".

O relato de Gênesis I é coerente. Todos os "seres viventes" são criados aos pares (macho e fêmea), segundo sua espécie, até para que se lhes tornasse possivel frutificar e multiplicar-se. Por que com o ser humano haveria de ser diferente?
Assim, sendo homem e mulher criados juntos, infere-se que o homem teve uma companheira desde o dia em que nasceu.

Por que, então, em Gênesis II, ele aparece só, sem achar "uma companheira frente a ele"? (Gn II,20) Que teria acontecido com a primeira mulher, criada junto com homem, e que não era osso de seus ossos?
Teria morrido, deixando Adão viúvo e solitário?

A resposta é outra e mais chocante.
Adão ficou só porque sua mulher se foi. O casal se separou.
Em suma, o primeiro casamento da História terminou em divórcio.

LILITH
Tanto o mito da Criação quanto as demais narrativas fabulosas incluídas no Gênesis, guardam o traço inequívoco da rica tradição sumeriana, que se irradiou por todo o mundo mesopotâmico (com as devidas adaptações), enriquecendo as culturas que se desenvolveram naquela região, inclusive a babilônica, de onde deve ter sido absorvida pelos hebreus.

Portanto, é para a Suméria que devemos nos voltar, quando buscamos as origens da lenda de Lilith (aliás "Lilu", aliás "Ardat Lili", aliás "Lamaschtu"), um aspecto do culto à "Grande Deusa", cujas raízes nos remetem a um tempo remoto, de predominância matriarcal.

Em sua versão hebraica, Lilith se converteu na primeira mulher de Adão, criada junto com ele por IHWH, no sexto dia da Criação.

Roberto Sicuteri, autor da obra, "Lilith, a Lua Negra", é um dos que afirmam ter sido à época da transposição da Versão Jeovística da Bíblia para a versão Sacerdotal, que a lenda de Lilith foi expurgada do Gênesis, deixando uma lacuna que tornou contraditórios os capítulos I e II daquele livro. Ainda assim, sobraram alguns vestígios no texto canônico, a exemplo do que se lê no Livro de Isaias (Is 34:14).

Expulsa da Torah, a lenda de Lilith sobreviveu no Talmud, no Alfabeto de Ben Sira, e na Cabalah, ainda que mutilada por um progressivo processo de aviltamento da personagem. Na Idade Média, ela se integrou ao imaginário cristão, por força da popularidade de um texto hassídico, "Zohar - o livro do explendor" (século XIII), tida com uma das mais importantes obras do esoterismo cabalístico.

CONFLITO CONJUGAL
Diferente da pacata Eva (que haveria de substituí-la), Lilith era uma mulher voluntariosa e rebelde, que reinvidicava igualdade de direitos em relação ao homem.
Quando o casal copulava, ela contestava o fato de ficar sempre por baixo, suportando o peso do esposo. "Por que devo deitar-me embaixo de ti? Por que devo abrir-me sob teu corpo? Por que devo ser dominada por ti, se também fui feita de pó e por isso sou tua igual"?

A essas questões, Adão respondia alegando haver uma "ordem" que não podia ser transgredida, segundo a qual o macho deve dominar a fêmea, para que se preserve o equilíbrio preestabelecido por Deus.

Indignada com o "machismo" do marido, Lilith decidiu abandoná-lo, retirando-se do Jardim do Éden e indo viver às margens do Mar Vermelho. Inconformado, Adão denunciou o comportamento da esposa ao Eterno, que destacou três anjos (Semangelaf, Sanvi e Sansanvi) para trazê-la de volta. Mas Lilith se recusou a voltar, sendo amaldiçoada pelos anjos: ela jamais teria filhos, pois todos os que concebesse morreriam logo após o parto.

O mito de Lilith, em sua versão hebraica, é vigoroso e fascinante, sendo razoavelmente possivel reconstituir as mutações progressivas que sofreu ao longo do tempo, e que terminaram por converter a primeira mulher criada por IHWH em uma figura diabólica (*).

RECONSTRUÍNDO O GÊNESIS
Com a inclusão da história de Lilith, desaparece a incoerência entre os capítulos I e II do Livro do Gênesis, viabilizando a seguinte leitura do mito da Criação:
1 - No sexto dia, IHWH cria o primeiro casal de humanos (Adão e Lilith): "macho e fêmea os criou".
2 - Lilith não aceita ser dominada pelo marido e o abandona, deixando o Éden.
3 - Inconformado, Adão queixa-se a IHWH, que manda três anjos no encalço de Lilith, com ordens para trazê-la de volta.
4 - Lilith nega-se a voltar e é amaldiçoada pelos anjos.
5 - Solitário, Adão vaga pelo Éden sem achar "uma companheira frente a ele".
6 - IHWH apieda-se de Adão e resolve dar-lhe outra esposa.
7 - Para garantir que a nova mulher (Eva) será submissa e dependente do homem, IHWH fá-la nascer de uma costela de Adão.
8 - Ao receber sua segunda companheira, Adão mostra-se aliviado: "Esta vez é osso dos meus ossos e carne da minha carne".

(*) Unido-se a um demônio (Samael), Lilith busca vingança contra Adão. Disfarçada de serpente, induz Eva a comer do "fruto proibido", provocando a ira de IHWH sobre o segundo casal. Na Europa Medieval, ela se converte em "súcubo", que além de assediar os homens durante o sono, vitima as mulheres grávidas, matando seus bebês no momento do parto. Para conjurá-la, escrevia-se nas paredes do quarto da gestante: "Adão e Eva, menos Lilith".

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Este texto deriva de uma palestra proferida pelo autor deste blog, em 2001, na Loja da Ordem Rosacruz AMORC, em Belém-PA. Está também publicado no sítio Kaderno

domingo, 8 de junho de 2008

O Cristo

















Guiado por "sábios" de diferentes épocas, que o ajudam a cimentar a estrada da auto-desvalorização, o homem, exigente e intolerante para consigo mesmo, se culpa por não alcançar a Luz divina. E conclui que não a alcança por força de seus "pecados". Então, tenta redimí-los, na forma de sacrifícios e oferendas a quem, em princípio, disporia do poder de perdoá-lo e limpá-lo de suas iniqüidades.

Aqui e ali, surge alguém em quem muitos reconhecem uma resposta cósmica às suas súplicas. Há quem vá mais além, admitindo estar diante do próprio Deus encarnado. Esses homens dizem e fazem, mas disso pouco se preserva, soterrado pela teologia que se ergue em torno de sua vaga lembrança.

Houve um tempo em que um homem, chamado Jesus, viveu sobre a face da Terra. Seus pósteros chamaram-no de "Cristo".

A História, que é uma ciência, busca saber e entender quem foi Jesus e o que ele fez. Quanto ao Cristo, ela nada pode ou ousa dizer, porque ele não pertence ao mundo onde a Ciência garimpa conhecimento. Seu lugar é no interior do Homem, protagonista de um processo espiritual, que busca capturar um sentido transcendente para a vida e desvendar os mistérios de seu próprio destino.

sábado, 3 de maio de 2008

O Filho do Pai


Os Evangelhos relatam que, na tentativa desesperada de salvar Jesus, em quem não via nenhuma culpa, Pilatos valeu-se de um costume judaico, vigente durante a Pessach (páscoa), de libertar um prisioneiro condenado à morte, oferecendo ao povo a escolha entre Jesus e Barrabás.

Em João, Barrabás é identificado como um "salteador"; em Marcos e Lucas, ele foi condenado por ter matado alguém durante uma "sedição", e em Mateus, diz-se apenas que ele era "um preso bem conhecido".

O problema é que em nenhuma literatura hebraica, inclusive no Talmud, é possível encontrar qualquer menção à prática de libertar um prisioneiro durante a Pessach. Não se conhece nenhum caso de alguém que tenha sido beneficiado por essa suposta tradição. Tudo leva a crer, portanto, que ela não existia. Também não há qualquer fonte que nos diga que os romanos libertassem prisioneiros condenados, em respeito à tradição religiosa dos judeus ou de qualquer outro povo integrante do Império. E note-se que possuímos abundante literatura sobre o Direito Romano e seu "código processual". Esse Direito era rígido: uma vez decretada a condenação do prisioneiro, somente o Imperador detinha o poder de anulá-la ou comutar a sentença. No caso de Jesus, nem lhe cabia "apelar para César" (como Paulo de Tarso o fez), porque ele não era cidadão romano.

Resumindo, nem na prática judicial romana, nem na hebraica, há qualquer referência à libertação de prisioneiros durante a Pessach ou qualquer outra data religiosa. Considere-se, também, que enquanto Jesus (variante mais "moderna" do antigo nome Josué) era um nome comum em sua época, não se tem referência a nenhum outro Barrabás (possivelment "bar" + "abba" = filho do pai) em toda a longa história de Israel.Por conseguinte, o Barrabás dos Evangelhos é, muito provavelmente, um personagem fictício, cuja função nos relatos da "Paixão" é acentuar a responsabilidade (culpa) do povo judeu na morte de Jesus.

Mas admitamos, por um momento, que essa prática existisse e que Barrabás foi beneficiado por ela.Em todos os relatos da execução de Jesus, menciona-se que ele foi crucificado entre dois outros condenados, descritos sumariamente como "ladrões". A incoerência começa com o fato de que os romanos não costumavam matar meros ladrões. Pelos menos, não rapidamente. A prática usual era torná-los escravos das minas ou galés de navios (onde a vida do prisioneiro tendia a ser curta). Além disso, se os dois "ladrões" eram também condenados à morte, como Barrabás, porque Pilatos não os incluiu, quando ofereceu ao povo a possibilidade de libertar um condenado? Se a prática existia, todos os sentenciados à morte haveriam de poder ser beneficiados por ela.

Por que apenas Barrabás?

[Texto extraído do sítio "O Filho do Homem"]

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Gênesis ( I )









Durante um curso que eu estava ministrando, ocorreu-me promover, entre os alunos, uma pequena "enquete" sobre as origens do Homem.
O resultado me deixou estupefato.
A maioria esmagadora dos consultados manifestou-se pelo Criacionismo, sustentando que a espécie humana surgiu na Terra exatamente como está descrito no Livro do Gênesis, ou seja, por um gesto direto e instantâneo de IHWH (o áspero e implacável deus do Judaísmo, tornado padrasto dos cristãos). Detalhe: nenhum dos estudantes tinha idade superior a 30 anos.

Como é possivel que, em pleno século XXI, jovens de uma geração "independente", com amplo acesso à informação, admitam como realidade semelhante mito, é coisa que eu não ouso tentar explicar. Resta-me concluir que padres, pastores e rabinos estão sendo mais competentes (ou convincentes) que nós, professores.

Certamente, Gênesis é um livro fabuloso, sob todas as acepções que o termo comporta, mas sobretudo por ser um livro de fábulas, da primeira à última linha. Ele contem a resposta fantástica de um povo semita à questão que o Homem sempre se fez e ainda se faz: como foi que tudo começou? Questões como essa não podem ficar sem resposta. Se ela não existe, há de ser fabricada com a matéria-prima da Imaginação.

Por vezes, essa imaginação chega a extrapolar as fronteiras lógicas da questão proposta, como a de uma tribo do Amazonas, que além de conceber uma lenda para explicar o "começo de tudo", acrescentou outra para mostrar "o começo antes do começo".

Na concepção idealista de um povo campesino, que vive da agricultura e do pastoreio, o Paraíso Terrestre é um Jardim (ou, como alguns preferem, um Pomar), onde estão fincadas, entre outras, as árvores da Vida e do Conhecimento, ambas interditas ao usufruto humano (IHWH queria o Homem simples e ignorante). Por isso, quando a Criatura viola a interdição e prova o fruto do Conhecimento, adquirindo as noções de Bem e Mal, torna-se "como a divindade". Então, IHWH, preventivamente, a expulsa do Éden, antes que coma o fruto da Vida, e conquiste a imortalidade (Gn 3; 22).

Preventiva também é a atitude de confundir a língua dos construtores da Torre de Babel, que se haviam unido para edificar uma cidade. A tradição popular entende o episódio como um castigo divino a homens pretensiosos, que se dispunham, com a torre, a "tocar o céu". Na verdade, esse "tocar o céu" tem o mesmo sentido que hoje aplicamos a um edifício de muitos andares, chamado de "arranha céu" (Obviamente, ninguém admite que um edifício possa "arranhar o céu"). O que aqueles homens precisavam era de um prédio bem alto, capaz de orientar, visualmente, os que se afastassem, em demasia, do local das obras. Em suma, tudo quanto eles queriam era ficar juntos, porque haviam descoberto o enorme potencial da união, do trabalho coletivo, para o qual uma lingua comum era essencial. E foi isso que desencadeou a intervenção de IHWH: "Eis que o povo é um e fala a mesma língua; e isto é o que começam a fazer; e agora não lhes será privado tudo quanto intentem fazer" (Gn 11;6). Então, confundiu a língua dos homens, para que não se entendessem e se dispersassem (Gn 11;7).

Fábulas como essa, a exemplo da que narra o Dilúvio Universal, têm o traço inequívoco da rica tradição sumeriana, e devem ter sido absorvidas pelos israelitas à época do Cativeiro Babilônico.

Genesis ( II )

Quando trata da criação do Ser Humano, Gênesis mostra IHWH agindo em dois momentos. E essa é a história que está na cabeça de todos. O Varão é criado primeiro; a fêmea, somente após concluído o processo geral da criação (6 dias). IHWH cria o homem à sua "imagem" e "semelhança", expressões que Moshê ben Maimon (Maimônides) associa a dois conceitos distintos: "Tôar" = imagem, forma material; e "Demut" = semelhança, forma espiritual (Note-se o quanto a contribuição intelectual dos rabis enriqueceu as fábulas do Gênesis, sofisticando-as e tornando-as base de uma complexa teologia).

"E formou o Eterno Deus ao homem, pó da terra, e soprou em suas narinas o alento da vida" (Gn 2;7).
Para vários povos antigos, a energia vital, que faz do homem um ser vivo, está associada ao ar que ele respira. Não é somente após inalar o ar, pela primeira vez, que o recém-nascido dá "sinal de vida"? Encontramos igual conceito na teologia egípcia de Akhenaton.

Algum tempo depois, entendendo que não era bom que o homem vivesse só, IHWH fê-lo cair num sono pesado, "...e tomou uma das suas costelas e fechou com carne o seu lugar" (Gn 2;21). Então, "...fez o Eterno Deus da costela que tinha tomado do homem, uma mulher, e a trouxe ao homem" (Gn 2;22). Há quem diga que a Torah não fala em "costela" mas em "lado" do homem. Contudo, não é assim que se lê na tradução do rabino Meir Melamed, lider espiritual da Comunidade Sefaradi de Miami. E não serei eu (que de hebraico sabe quase apenas que se escreve da direita para a esquerda) a colocar em dúvida a fidedignidade de sua tradução.

Por que tivera IHWH que tomar uma costela do homem, para criar a mulher, quando poderia tê-la formado do pó da Terra (adamah), como o fizera ao criar o homem? Há várias respostas possíveis para essa pergunta.

A mais óbvia é a que acentua o laço de dependência (ou subordinação) da mulher em relação ao homem, bem ao sabor ideológico da sociedade patriarcal que concebeu tal fábula. Mas há também outra explicação, mais rebuscada. Ao criar o mundo, IHWH criou, igualmente, as "leis" que o regem. Concluído o Processo de Criação (6 dias), tais leis não podiam mais ser violadas, nem mesmo pelo Criador. E segundo elas, a vida brota da vida, um ser é gerado por outro ser, de sua espécie. O ser humano não pode mais nascer da terra, mas apenas de outro ser humano. Por isso, a primeira mulher é formada a partir do primeiro homem (Na mitologia grega, até os deuses eram subordinados a certas "leis universais")

Se essa história da criação dos seres humanos em dois momentos distintos é a mais conhecida e repassada, certamente não é a única contida no Gênesis. Quem lê o livro com atenção, percebe que ele abriga duas narrativas diferentes, gerando uma contradição entre os capítulos 1 e 2. Estudiosos da Bíblia encontram nesse detalhe a presença de duas fontes distintas, acomodadas no mesmo texto. Mas há uma outra explicação, segundo a qual os dois capítulos se tornaram contraditórios, por supressão de uma parte da fábula. Sim, porque do mesmo modo como fatos reais são deturpados e se convertem em lendas, as próprias lendas podem também ser vítimas de mutilações. É o que parece ter acontecido nesse caso.

Para conhecer melhor essa hipótese, sugiro a leitura de A Primeira Mulher de Adão.

Abraão, Isaac e Jacob são personagens emblemáticos de uma saga de sonhos imigrantes e promessas divinas, que serve de inspiradora abertura para a história subseqüente da nação de Israel, concebida num tempo em que o monoteísmo (melhor talvez seja falar em monolatrismo) já se havia tornado o traço distinto de sua cultura nacional.

Gênesis termina com a lenda de José, intróito necessário ao segundo, mais importante, mais apoteótico e não menos fabuloso livro do "Pentateuco": o Êxodo.