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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Drácula

Drácula, o "vampiro da noite", é figura de ficção, criada pelo escritor Bram Stoker, mas inspirada em personagem real que, embora não bebesse sangue humano, não vacilava em derramá-lo das formas mais cruéis. Seu nome era 

VLAD, O EMPALADOR
  

    
Vlad foi um "boiardo" (aristocrata) que viveu na Europa Oriental, no século XV, em uma área que atualmente faz parte da Romênia. Embora fosse originário da Transilvânia, seu nome está associado à história de uma região vizinha, a Valáquia, onde até hoje ele é cultuado como um herói nacional.
   
 
Nasceu por volta do ano de 1431, na cidade de Sighisoara (Schassburg, em alemão), na Transilvânia, localizada a cerca de 40 quilômetros ao sul de Bistrita. Teve dois irmãos: Mircea e Radu. A casa onde veio ao mundo está, atualmente, identificada por uma placa, onde se lê que seu pai ali morou de 1431 a 1435.
  
Sua mãe era a princesa Cneajna, da dinastia Musatin da Moldávia, e seu pai, que também se chamava Vlad, era o voivoda (senhor) da Valáquia, ainda que devendo vassalagem feudal aos soberanos da Hungria.
 

A ORDEM DO DRAGÃO



À época em que Vlad nasceu, toda aquela região vivia um clima político de conflitos e incertezas, sendo objeto de disputa entre os húngaros e os turcos otomanos, que forçavam as portas da Europa através dos Bálcãs, mal contidos pelo já debilitado Império Bizantino.

Parece ter sido nesse ano (1431) que seu pai ingressou na Ordem do Dragão (Dracul), cujo nome viria a adotar, passando a ser conhecido como Vlad Dracul.

A Ordem do Dragão era uma fraternidade militar e religiosa, criada pelo imperador Sigmund e sua segunda esposa, Barbara von Cilli, com o propósito de defender a igreja católica contra heresias e organizar uma cruzada contra os turcos, que ameaçavam a península balcânica.

Após lutar por vários anos contra os turcos, o pai de Vlad acabou preferindo fazer um acordo secreto com o sultão, Murad II, e por isso, deixou de prestar o auxílio militar requerido pelo príncipe húngaro, Hunyadi, quando os otomanos invadiram a Transilvânia, em 1442. Essa traição lhe custou o governo da Valáquia, que ele só recuperou no ano seguinte, com o apoio do sultão, de quem se tornou vassalo.

Para garantir a fidelidade de seu aliado, Murad II tomou como reféns dois de seus filhos: Radu e o jovem Vlad. E foi assim que o príncipe Vlad tornou-se um hóspede forçado na corte do sultão, onde permaneceria até 1448.
  
Em 1447, seu pai morreu em uma emboscada armada pelos húngaros, e seu irmão, Mircea, aprisionado, foi enterrado vivo (ou queimado vivo, segundo outra versão). O domínio da Valáquia ficou com Vladislav, vassalo de Hunyadi.
  
Hunyadi János Szeged

Disposto a tudo fazer para entrar na posse do que entendia ser seu por herança, Vlad convenceu o sultão a libertá-lo e ajudá-lo a retomar o que fora tirado de seu pai. Com o apoio de tropas turcas, conseguiu o que pretendia mas foi uma conquista efêmera pois, alguns meses depois, Hunyadi atacou e forçou-o a fugir para a Transilvãnia.

Abandonado pelos turcos e perseguido por Hunyadi, Vlad passou um dos períodos mais difíceis de sua vida. Não tardou a ter que também deixar a Transilvânia, buscando refúgio na Moldávia, onde se encontrava quando a situação se alterou a seu favor. Vladislav passara para o lado dos turcos e, devido a isso, Hunyadi resolveu fazer as pazes com o antigo inimigo. Vlad tornou-se, finalmente, voivoda da Valáquia, sob a proteção de Hundyadi, a quem passou a dever vassalagem.
   
 
O EMPALADOR


Castelo de Vlad Dracula em Trigoviste

Em 1453, os turcos tomaram Constantinopla e as portas da Europa Oriental se abriram à invasão otomana. A princípio, Vlad lutou sob a bandeira de Hunyadi contra os invasores mas quando este morreu, ele se sentiu livre da tutela húngara, tornando-se senhor único e absoluto da Valáquia. Fazendo da cidade de Trigoviste sua capital (onde construiu um castelo, próximo ao rio Arges), resolveu travar sua própria guerra com os turcos.

Foi no período de 1456 a 1462 que Vlad Dracula (*) construiu sua dupla fama: de um lado, a de herói nacional da Valáquia, defendendo-a contra a avalanche turca; de outro, a de um tirano cruel, que se comprazia em infligir aos inimigos (internos e externos) sofrimentos atrozes. Sua preferência pelo suplício da empalação acabaria lhe granjeando a alcunha de "Tepes" (empalador), com a qual entrou para a História.

A empalação consistia em pendurar a pessoa em uma estaca, fincada ao chão, que era introduzida, geralmente, através do ânus da vítima. Para evitar que órgãos vitais fossem perfurados, provocando morte rápida, a estaca era arredondada, não afiada e untada com óleo. Desse modo, o condenado só morria após horas (ou mesmo dias) de agonia.

Empalação

Para semear o terror, Vlad costumava deixar os corpos apodrecerem nas estacas, como uma forma de aviso aos seus inimigos. Um relatório militar, datado de 1460, menciona que uma tropa turca, ao penetrar em território valáquio, recuou, atemorizada, ao deparar com centenas de estacas erguidas às margens de um rio, das quais pendiam corpos em adiantado estado de putrefação.

A bem da verdade, diga-se que Vlad não era o único a usar esse método abominável de execução. Os turcos também o usavam , e é até provável que tenham sido eles a introduzí-lo na Europa Oriental. Diga-se também que, nessa época, castigar os inimigos com requintes de crueldade era prática corriqueira e aceita por todos, fossem cristãos ou muçulmanos. Mas Vlad "Tepes" acabou se tornando célebre pela grande quantidade de pessoas que imolou, nos poucos anos em que exerceu o poder supremo na Valáquia.

Além da empalação, ele também se dedicava a outras práticas não menos cruéis, tais como: enterrar pregos na cabeça e outras partes do corpo da vítima; decepar braços, pernas, orelhas e narizes; e mutilar órgãos sexuais de pessoas "sem castidade", especialmente esposas infiéis e mulheres de vida promíscua.

  
O FIM DE VLAD


Apesar de seu destemor e de ter obtido vitórias importantes, Vlad não conseguiu deter o avanço turco. Em 1462, viu-se obrigado a fugir da Valáquia, deixando para trás a esposa, que se suicidou, atirando-se da torre do castelo, para não cair nas mãos dos muçulmanos. Dirigindo-se à corte de Matthias Ccovinus, rei da Hungria, pediu auxílio para recuperar seu reino mas não teve êxito, chegando a ficar detido, por algum tempo, na prisão real.

Depois de solto, permaneceu na corte húngara até 1474, período em que teria desposado uma donzela parente do rei. Enquanto isso, seu irmão Radu, que se convertera à causa turca desde o tempo em que era refém do sultão, governava a Valáquia, em nome do monarca otomano.

Quando o irmão morreu e foi sucedido por Basarab (outro marionete do sultão), Vlad tentou recuperar seu reino, aliando-se ao príncipe da Transilvânia. De início, chegou a colher algumas vitórias contra as tropas de Basarab mas, ao enfrentar as forças turcas, acabou sendo morto numa batalha, em dezembro de 1476.

Sua cabeça foi levada ao sultão, que a mandou ser exposta em uma estaca, para que não pairassem dúvidas sobre sua morte. O corpo decapitado foi enterrado no mosteiro de Snagov, perto da atual Bucarest.

 


BRAM STOKER E O MITO DO VAMPIRO

 Bram Stoker

A extrema crueldade de Vlad e o terror que infundia em seus inimigos respondem pela fama de "demônio", que tanto os seus contemporâneos quanto a posteridade lhe conferiram. Considere-se também que essa associação foi favorecida pela semelhança entre as palavras romenas "dracul" (sobrenome adotado que Vlad herdou do pai), cujo significado é "dragão", e "drac" (em alemão, "drache"), que significa "demônio".

Apesar disso, em toda a tradição da Europa Oriental, jamais sua pessoa foi associada ao mito, muito difundido na região, dos "mortos-vivos", ou "vampiros", referidos pelos termos "vrolok" (em idioma eslovaco) ou "vlkoslak" (em sérvio). Essa associação só viria a ser estabelecida, no mundo ocidental, a partir do romance "Drácula", escrito pelo irlandês Bram Stoker, e editado, pela primeira vez, por Archibald Constable & Company, em 1897.
  

É provável que, para escrever sua obra, Stoker não tenha realizado qualquer pesquisa mais aprofundada sobre a história de Vlad, limitando-se a recolher o nome "Drácula", em sua acepção deturpada de "filho do demônio", e inserí-lo no contexto lendário dos vampiros, seguindo o caminho literário aberto por Thomas Preskett Prest, autor de "Varney, o vampiro" (1847), e Sheridan Le Fanu, criador de "Carmilla" (1872). Talvez por isso, ele comete o erro de situar o castelo de Drácula na Transilvânia, ao invés de na Valáquia. E se a trama do romance se inicia na Romênia, Stoker apressa-se em transferí-la para a Inglaterra, cenário que lhe era, certamente, bem mais familiar.

Em termos literários, "Drácula" é um romance menor, de narrativa que pode se tornar cansativa, porquanto vazada em notas de diário, cartas e telegramas. Mas a força do personagem central é tão grande sobre o imaginário do leitor, que ele se tornou emblemático, garantindo sucessivas edições do livro, em todos os principais idiomas do mundo.

Além disso, o cinema ajudou a amplificar o prestígio do "vampiro da noite", encarnado na tela por atores como Bela Lugosi, Klaus Klinski e Christopher Lee.
  
Christopher Lee


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(*) O "a" final indica "filho de"; logo, Dracula significa "filho de Dracul", ou "filho do dragão"

@ Alvaro Rodrigues (2005)


terça-feira, 1 de novembro de 2011

O glorioso rei Salomão


Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. (Mateus 6:28-29)


Até o presente, não há qualquer comprovação ou mesmo indícios significativos capazes de conferir autenticidade histórica à figura do rei Salomão, nem que Jerusalém tenha sido, por volta do século X a.C., o centro de um reino amplo e próspero, conforme descrito no Livro dos Reis.
  
Ademais, tendo sido Salomão um rei famoso por sua sabedoria e riqueza (como mostrado na Bíblia), era de se esperar que seu nome fosse referido por outros povos daquela região, sobretudo pelos fenícios de Tiro, com quem o reino de Salomão manteria intenso comércio.
   
A ausência de quaisquer achados arqueológicos dessa natureza parece indicar que Salomão é, na verdade, o símbolo de um passado glorioso (ainda que lendário) que a maioria dos povos antigos apreciava se atribuir.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Holocausto cigano


Por sua natureza nômade, os ciganos sempre foram mal vistos e, eventualmente, vítimas de preconceito e perseguições, em vários recantos do mundo. Mas nenhuma experiência passada pode ser comparada, em horror e desumanidade, àquela que esse povo viveu na Europa, durante os tempos sombrios do Nazismo, como se lê no texto abaixo, de Myriam Novitch, diretora do Museu dos Combatentes dos Guetos, fundado por um grupo de sobreviventes do Gueto de Varsóvia: 

O nazismo no século XX, retomou toda série de preconceitos, discriminações e perseguições dos séculos anteriores, tentando assim uma campanha de extermínio como nunca antes empreendida. Desde 1933, a imprensa nazista começou a acentuar que os ciganos e judeus eram raça estrangeira, inferior, e que teriam contaminado a Europa como um corpo estranho.

O primeiro grito de alarme oficial para o mundo cigano se fez ouvir a 17 de outubro de 1939, quando Heydrich, a mando de Hitler, proibiu-os de abandonar seus acampamentos. Nos três dias seguintes, após recenseamento, foram transferidos para campos de concentração, esperando serem enviados à Polônia.

Mas já em 1936 tinha começado para os ciganos a via sacra dos campos de concentração, ainda que com escopos diversos. Dachau foi um de seus primeiros campos de concentração. Eram internados com a qualificação de elementos associais. Sofriam então medidas disciplinares duríssimas.

Nesse ínterim a propaganda contra os ciganos se tornava sempre mais áspera. Em novembro de 1941 lançou-se o slogan: Depois dos judeus, os ciganos!

A 24 de dezembro de 1941, o governador civil Lohse envia uma ordem reservada a todas as SS, afirmando que os ciganos são duplamente perigosos, tanto pelas doenças de que são portadores como pela sua deficiência, prejudicando assim a causa nazista. Ao termo do comunicado, a decisão: Decidi portanto que sejam tratados como os judeus (Carta de 7 de julho de 1942, no arquivo Yivo).

Em outubro de 1941, chegaram a Lodz cinco mil ciganos, entre os quais mais de 2.600 crianças. Foram todos internados por grupos de famílias. Os testemunhos nos dizem que as janelas das barracas estavam quebradas, enquanto o inverno era extremamente duro. No campo não havia medidas higiênicas nem assistência médica. Duas semanas depois da chegada dos nômades, irrompeu uma epidemia de tifo, e em dois meses morreram mais de 6oo adultos e crianças. Os sobreviventes entre março e abril de 1942, foram deportados para Chelmo, e ali assassinados nas câmaras de gás.

Desde então até 1946 se multiplicam os testemunhos: massacres coletivos, mortes individuais, tortura de todo o tipo, experimentos químicos e médicos dos mais cruéis. E todas essas crueldades ocorriam nos diversos campos de concentração. Eis os nomes de alguns desses campos: Auschwitz, Birkenau, Mauthausen, Rabensbruch, Buchenwald, Chelmo, Lodz, Dachau, Lackenbach, Sachsenhausen.

Ao campo de Auschwitz chegavam ciganos de toda a parte. Homens, mulheres e crianças, sendo que estas últimas vinham da Boêmia, dos Carpatos, da Croácia, do Nordeste da França, da Polônia meridional e da Rutênia. Bárbara Richter, menina cigana, assim depõe: Até os prisioneiros mais afeitos a esses horrores sentiram enorme tristeza quando perceberam que os SS iam tirar um por um os pequenos judeus e ciganos, reunindo-os em um só rebanho. Os meninos choravam e gritavam, tentavam freneticamente voltar para os braços dos pais ou dos protetores que tinham encontrado entre os prisioneiros, mas envolvidos por um círculo de fuzis e metralhadoras, foram levados para fora do campo e enviado para Auschwitz, onde morreriam nas câmaras de gás.

No campo de concentração nem todos eram enviados à câmara de gás, muitos iam para os trabalhos forçados. No campo estas eram as condições: No setor cigano erguiam-se grandes cabanas com uma abertura à frente e outra atrás. Serviam como portas. Nos compartimentos internos achavam lugar a uma única mesa grande cinco ou seis pessoas. As condições higiênicas eram desastrosas quase não havia instalações sanitárias... Parecia um estábulo para cavalos, sem janelas... Os prisioneiros se moviam em meio a seus próprios dejetos até os calcanhares.

Respondendo a uma observação, por insuficiência de calorias, um oficial comentou: Mas no fundo são apenas ciganos!  Quem mais sofria eram as crianças... Como depôs alguém: As crianças eram pele e ossos. A pele, em conseqüência, se enchia de feridas infecciosas. Por causa da falta d'água, as crianças chegaram a beber água servida; nas poucas vezes em que os cobertores eram lavados, vinham de volta para a enfermaria ainda molhados. Elas sofriam de estomatite cancrenosa... parecia lepra...seus corpinhos iam se desfazendo, bocas espantosas se abriam nas faces, e lá dentro se podia observar a lenta putrefação da carne viva.

Só no campo de Aushwitz, os ciganos regularmente matriculados foram 20.933, incluindo 360 crianças nascidas no campo de concentração, e que viveram o bastante para receberem número de matrícula. A estes se devem somar mais de 1.700 ciganos mandados para a câmara de gás, assim que chegaram da Polônia em março de 1943, e que nem tinham recebido ainda o número de matrícula. Durante uma simulação de ataque aéreo noturno, foram todos mandados à câmara de gás, por suspeita de serem portadores de tifo.

Esses testemunhos, que poderiam se multiplicar quase no infinito, culminariam no massacre final, narrado por quem assistiu à matança de quatro mil ciganos, no começo de agosto de 1944: A sirena anunciou um princípio de um rigoroso toque de recolher. Os caminhões chegaram por volta das 20 h. Os ciganos tinham previsto o que estava para acontecer, mas os alemães fizeram de tudo para confundir as idéias: ao saírem dos acampamentos, os ciganos recebiam uma ração de pão e salame, e muitos assim acreditaram que se trataria simplesmente de transferência para outro campo.

Podíamos ouvir, quando os últimos e horríveis instantes, irromperam no acampamento e se lançaram contra mulheres e crianças e anciãos, alemães armados e auxiliados por cães. De repente o ar foi rasgado pelos gritos de um garoto que em theco suplicava: Eu lhe peço, senhor SS, me deixe viver! A única resposta que teve foram os golpes de cassetete. Por fim, foram todos jogados, em montes, no caminhão e levados ao crematório. Houve ainda quem tentasse resistir, invocando a nacionalidade alemã (Kraus e Kulka).

Houve cenas de cortar o coração: mulheres e crianças se ajoelharam diante de Mengele e Borger, gritando; Piedade! Tenha piedade de nós! Em vão. Foram abatidos a coronhadas, pisados, arrastados ao caminhão, levados à força. Foi uma noite horrível, alucinante. Na carroceria foram jogados os que também já tinham morrido sob os golpes da clava . Os caminhões chegaram ao bloco dos órgãos por volta de 22h30min e ao isolamento por volta de 23hs. Os SS e quatro prisioneiros levaram para fora os enfermos, mas também 25 mulheres em perfeita saúde, isoladas com os respectivos filhos (Aldesberger, p.112-13).

Por volta de 23hs chegaram outros caminhões diante do hospital, num só caminhão colocaram cerca de 50 a 60 presos e foi assim que chegaram até a câmara de gás. Ouvi os gritos até altas horas da madrugada, e compreendi que alguns tentavam opor resistência. Os ciganos protestavam, gritando e lutando até a madrugada... Tentavam vender a vida a um alto preço (Dromonski, no processo por Auscwitz).

Depois, Gober e outros percorreram os quartos um por um tirando dali as crianças que tinham se escondido. Os menores foram arrastados até os pés de Boger, que os agarrava pela perna e os jogava contra a parede...Vi esse gesto se repetindo-se umas cinco, seis e sete vezes(Langhein).

A certa altura aproximou-se de mim um oficial SS e mandou que escrevesse uma carta que tinha por assunto tratamento especial executado. Ele mesmo arrancou violentamente a carta da máquina, assim que terminei de datilografá-la. Quando se fez dia no acampamento, não havia de pé um só cigano (Testemunho Stenber-Longhein, 1965).

As estimativas mais próximas falam de ao menos meio milhão de ciganos mortos, mas sabemos que esses dados são inferiores às cifras reais, pois muitos foram mortos antes mesmo de serem matriculados.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

As freiras de Loudun


No  famoso caso da Freiras de Loudon, acontecido em 1633, Urbain Grandier aparece como o grande vilão. Afinal, ele era a autoridade superior daquela paróquia e andava envolvido em escândalos sexuais. 
  
Quando as freiras do Convento de Loudun apresentaram sintomas de possessão, ou histeria, o padre foi acusado de magia negra: o povo acreditava que ele era o responsável pelos fenômenos e o inquérito apurou que Grandier estaria associado a dois demônios, Asmodeus e Zabulon, para produzir os ataques.
  
Sessenta testemunhas fizeram acusações de adultérios, sacrilégios e outros crimes cometidos mesmo em recintos sagrados, dentro da Igreja.
 
O processo de Urbain Grandier foi marcado por contradições. 
Várias religiosas retiraram as denúncias e revelaram terem sido "instruídas" por superiores. 
  
O réu afirmou sua inocência, mesmo submetido a torturas, e manteve esta posição até o momento final, na fogueira. 
  
Nos meses seguintes à morte de Grandier, vários de seus acusadores morreram vitimados por doenças misteriosas e as freiras continuaram a padecer de convulsões.   

PACTO DE GRANDIER   

No processo jurídico-eclesiástico contra Urbain Grandier, acusado de enfeitiçar as freiras de Loudun, consta que uma cópia do pacto, um documento escrito foi encontrado entre os papéis do réu, devassados depois de sua prisão. 
  
O costume de formalizar tais pactos por escrito foi instituído a partir do século XII (anos 1.100); até então, a maioria dos "acertos" com o Diabo era feita oralmente, na base da confiança mútua na palavra. O trato mais comum garantia que riquezas e honras seriam providenciados pelo Demo que, em paga, receberia a alma do feiticeiro depois de sua morte. 
 
O contrato estipulava um prazo para o desfrute das benesses; findo o prazo, o cobrador infalivelmente apareceria para cobrar o preço acertado. 

O "contrato" de Grandier ainda existe. Foi redigido em latim, da esquerda para direita, assinado com sangue, por mais de um demônio, e se encontra na Bibliothèque Nationale, em Paris. Diz o texto: 

Meu Senhor e Mestre, tenho-o como meu Deus; prometo servi-lo enquanto viver e, desde esta hora, renuncio a todos os outros deuses e Jesus Cristo e Maria e todos os Santos do Céu e à Igreja Católica Apostólica Romana e a todo o bem e preces que possam ser feitos por mim. Prometo adorá-lo e prestar-lhe homenagem pelo menos três vezes por dia e fazer o máximo de mal possível e levar ao mal tantas pessoas quanto possível; renuncio de coração ao Cristo, ao batismo e a todos os méritos de Jesus Cristo; no caso de desejar mudar, dar-lhe-ei meu corpo e minha alma e minha vida como garantia, tendo entregue tudo isso para sempre sem qualquer vontade de arrependimento. Assinado: Urbain Grandier, com seu sangue.  


O pacto diabólico (Bibliothèque Nationale, em Paris)
 

domingo, 21 de setembro de 2008

Oráculo de Delfos

 Estima-se que o oráculo de Delfos tenha começado a funcionar ao fim do segundo milênio antes de Cristo, isto é, entre 1200-1100 a.C. , tornando-se célebre, entre tantas outras coisas, por ter previsto o fim do reino da Lídia e eternizando-se para sempre ao ser citado na peça de Sófocles “Édipo Rei”, onde informa ao personagem central que ele “mataria o pai e casaria com a própria mãe”. Não houve grego famoso naqueles quase mil e quinhentos anos de prática da vidência, que não lhe fizesse uma visita, tentado averiguar que futuro os aguardava. 

Fazem parte da sua galeria ilustre uma boa quantidade de generais e conquistadores, inclusive os comandantes romanos que ocuparam a Grécia no século II a.C. Consta que, depois da sua quase destruição ocorrida no século VI a.C., quando o templo foi reconstruído com dotações pan-helênicas, coube ao imperador Nero submeter o oráculo de Delfos e suas cercanias a um saque que lhe rendeu mais de 500 estátuas levadas depois para Roma. 

O local foi fechado finalmente pelo imperador Teodósio, em 385, quando o Cristianismo tornou-se religião oficial do Império Romano e o Paganismo passou a ser perseguido.

Porém, Delfos já se encontrava em total decadência bem antes de ser definitivamente fechado. Quando o  imperador Juliano, o Apóstata (331-363), mandou fazer uma consulta ao oráculo, dizem que a resposta enviada a ele pelos sacerdotes que ainda ali restavam foi: 
Diga ao rei isso: o templo glorioso caiu em ruínas; Apolo já não tem um teto sobre a sua cabeça; as folhas dos lauréis estão silenciosas, as fontes e arroios proféticos estão mortos.” 

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

D. Helder seria Cardeal?

O saudoso arcebispo de Recife e Olinda, D. Helder Câmara (o principal responsável pela criação da CNBB), era amigo pessoal, há muito anos, de Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini, que veio a ser tornar o Papa Paulo VI. Quando ia ao Vaticano, não raro D. Helder se hospedava na casa de Montini. E quando Motini tornou-se papa, era voz corrente no episcopado brasileiro que D. Helder seria elevado ao cardinalato.

Aconteceu, então, que poucos meses após a eleição do sucessor de João XXIII, D. Helder foi chamado ao Vaticano, oficialmente para ajudar o Papa a definir a política da Igreja para a América Latina, no novo pontificado. Claro está que, no Brasil, ninguém tinha dúvidas de que D. Helder voltaria Cardeal.

Se era essa a intenção de Paulo VI, ninguém jamais soube.
Sabe-se apenas que, durante uma reunião de D. Helder com o Papa e seus assessores diretos, o "bispo vermelho" (como o chamavam os militares da ditadura brasileira) fez uma proposta "escandalosa".

Ele, simplesmente, propôs ao Papa que a Igreja se desfizesse de sua imensa riqueza material, doando-a a instituições empenhadas em minorar a miséria de milhões de seres humanos em todo o mundo, e se tornasse uma igreja "realmente cristã", vivenciando o "amor aos humildes", "como Jesus o fizera". Ou seja, a cartilha da "Igreja Progressista".

Fez-se um silêncio constrangedor no local da reunião.
Até que Paulo VI, respondendo, teria dito:
- "Ah, se dependesse só de mim, bem que eu o faria!"

D. Helder voltou Arcebispo para o Brasil.
E durante todo o pontificado de Paulo VI, nunca mais foi convocado ao Vaticano, salvo para participar de eventos protocolares.

(Alvaro Rodrigues/2005)

quarta-feira, 30 de julho de 2008

À sombra de Moisés
















A saga de Moisés, o profeta que teria arrancado seu povo da escravidão no Egito e fundado a nação de Israel, não tem consistência histórica, haja vista as pesquisas arqueológicas mais recentes. Ele seria, então, um personagem fictício ou tão alterado pelas lendas construídas em torno de seu nome, que hoje é quase impossivel separá-las de seu conteúdo histórico original.

Mas ainda que a maioria dos pesquisadores concorde que Israel foi um produto nativo da Palestina, não está descartada a hipótese de que pelo menos uma fração desse povo tivesse um "passado egípcio", muito provavelmente ligado à história dos "hicsos" - denominação aplicada a um amálgama de povos semitas que invadiu e dominou, por mais de meio século, a região do delta do Nilo.

Se houve um "êxodo", ele decorreu de motivos inversos ao que encontramos registrado na Bíblia: em lugar de um fuga heróica, consumada à revelia das autoridades egípicias, o que aconteceu foi a expulsão dos invasores semitas, promovida pelos reis tebanos que restauraram a autoridade faraônica sobre todo o país.

O domínio hicso ajudaria a explicar a meteórica ascenção do semita José a um alto cargo na burocracia do Egito. O problema é que não há nenhuma menção a ele em documentos egípcios ou de outros reinos do Oriente Médio nessa época. Sendo - como a Bíblia diz que foi - um poderoso Grão-Vizir, certamente seu nome haveria de ser citado e registrado dentro e fora do país.


Em tendo havido um "êxodo", ele se deu antes de 1200 aC, pois nessa data sabemos que já havia uma nação israelita estabelecida na Palestina. E sabemos disso por força de uma inscrição hieroglífica, onde o faraó Merneptah se jacta de suas vitórias naquela região. Em certo trecho, diz a inscrição: "Israel está destruído, sua semente não existe mais".

sábado, 3 de maio de 2008

O Filho do Pai


Os Evangelhos relatam que, na tentativa desesperada de salvar Jesus, em quem não via nenhuma culpa, Pilatos valeu-se de um costume judaico, vigente durante a Pessach (páscoa), de libertar um prisioneiro condenado à morte, oferecendo ao povo a escolha entre Jesus e Barrabás.

Em João, Barrabás é identificado como um "salteador"; em Marcos e Lucas, ele foi condenado por ter matado alguém durante uma "sedição", e em Mateus, diz-se apenas que ele era "um preso bem conhecido".

O problema é que em nenhuma literatura hebraica, inclusive no Talmud, é possível encontrar qualquer menção à prática de libertar um prisioneiro durante a Pessach. Não se conhece nenhum caso de alguém que tenha sido beneficiado por essa suposta tradição. Tudo leva a crer, portanto, que ela não existia. Também não há qualquer fonte que nos diga que os romanos libertassem prisioneiros condenados, em respeito à tradição religiosa dos judeus ou de qualquer outro povo integrante do Império. E note-se que possuímos abundante literatura sobre o Direito Romano e seu "código processual". Esse Direito era rígido: uma vez decretada a condenação do prisioneiro, somente o Imperador detinha o poder de anulá-la ou comutar a sentença. No caso de Jesus, nem lhe cabia "apelar para César" (como Paulo de Tarso o fez), porque ele não era cidadão romano.

Resumindo, nem na prática judicial romana, nem na hebraica, há qualquer referência à libertação de prisioneiros durante a Pessach ou qualquer outra data religiosa. Considere-se, também, que enquanto Jesus (variante mais "moderna" do antigo nome Josué) era um nome comum em sua época, não se tem referência a nenhum outro Barrabás (possivelment "bar" + "abba" = filho do pai) em toda a longa história de Israel.Por conseguinte, o Barrabás dos Evangelhos é, muito provavelmente, um personagem fictício, cuja função nos relatos da "Paixão" é acentuar a responsabilidade (culpa) do povo judeu na morte de Jesus.

Mas admitamos, por um momento, que essa prática existisse e que Barrabás foi beneficiado por ela.Em todos os relatos da execução de Jesus, menciona-se que ele foi crucificado entre dois outros condenados, descritos sumariamente como "ladrões". A incoerência começa com o fato de que os romanos não costumavam matar meros ladrões. Pelos menos, não rapidamente. A prática usual era torná-los escravos das minas ou galés de navios (onde a vida do prisioneiro tendia a ser curta). Além disso, se os dois "ladrões" eram também condenados à morte, como Barrabás, porque Pilatos não os incluiu, quando ofereceu ao povo a possibilidade de libertar um condenado? Se a prática existia, todos os sentenciados à morte haveriam de poder ser beneficiados por ela.

Por que apenas Barrabás?

[Texto extraído do sítio "O Filho do Homem"]