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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sêneca



Sábio é aquele que considera não apenas escravos, propriedades e cargos elevados, mas até mesmo seu corpo, seus olhos, suas mãos, e tudo o que torna a vida cara para nós, inclusive o próprio ego, como coisas cuja posse é incerta; vive como se as tivesse tomado por empréstimo e está pronto para devolvê-las de bom grado quando quer que elas sejam reclamadas.

Não obstante, ele não se menospreza, porque sabe que não se pertence mas cumpre todos os seus deveres tão diligente e prudentemente como o homem piedoso e escrupuloso tomaria conta de uma propriedade que lhe fosse entregue em custódia.

Quando chamado a devolver essas coisas não se queixa do Destino, mas diz: "Agradeço-te pelas coisas que estiveram em meu poder, administrei sua propriedade de modo a aumentá-la muito, mas já que assim me ordenas, eu a devolvo de boa vontade e com gratidão" (...)

Quando a Natureza nos reclamar o que antes nos confiou, digamos nós a ela: "Leva de volta o meu espírito, que está melhor do que quando o destes a mim". 

- Lucius Annaeus Seneca: filósofo romano estoico.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O domínio da vida



Vida ... uma estrada na qual somos todos peregrinos. Atrás de nós, o começo imediato, o nascimento, essa vasta eternidade. À nossa frente outra inevitável e vasta eternidade: a morte.  
Não pedimos esta vida e, todavia, não a poderíamos ter recusado. Como haveremos, então, de estar e reagir a ela?


Iludindo-nos com filosofias vãs que lajotam nossa indecisão com argumentos fatalistas (tanto mais saudados quanto mais ignotos) ?
O sucesso implica domínio e domínio implica em mobilizar todas as forças e poderes interiores do Homem, assim como as forças que lhe são exteriores ( o Eu recôndito há de ser capaz de olhar pela janela do porão e constatar que também há vida lá fora). 
Isso torna o ser humano um ser complexo, influenciado por princípios poderosos de natureza séria e vital. É mister tornamo-nos capazes de dar expressão material às nossas criações mentais, cada dia, cada hora, cada minuto.
Harmonizar-se com essas forças e torná-las nossas, atrelando-as a propósitos elevados, podem abrir as portas para o domínio da vida.




terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Martin Niemöller



"Primeiro eles vieram buscar os comunistas,  e eu não protestei porque eu não era comunista. 
Então, ele vieram buscar os judeus e eu não protestei, porque eu não era judeu.  
Então, eles vieram buscar os sindicalistas e eu não protestei, porque eu não era sindicalista.
Então, eles vieram buscar os católicos e eu não protestei, porque eu não era católico.
Então, quando eles vieram me buscar, já não havia ninguém para protestar."




Martin Niemöller (Lippstadt, 14 de janeiro de 1892 - Wiesbaden, 6 de março de 1984) foi um pastor luterano alemão. Preso pelos nazistas, foi mantido em um campo de concentração até o final da guerra.
Em 1966,  foi-lhe atribuído o Prêmio Lênin da Paz.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Vento


Embora se ponha um aviso:
"As flores não são para colher",
é sempre tempo perdido:
o vento não sabe ler.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Mágoa


Existem pessoas que se sentem ofendidas, magoadas por qualquer coisa: à mais leve contrariedade, se sentem humilhadas... Ora, nós não viemos a este mundo para nos banhar em águas de rosas...

Agradeço todas as dificuldades que enfrentei; não fosse por elas, eu não teria saído do lugar... As facilidades nos impedem de caminhar. Mesmo as críticas nos auxiliam muito.
Quando você não tiver uma palavra que auxilie, procure não abrir a boca...

Sabemos que precisamos de certos recursos, mas tudo que criamos para nós, de que não temos necessidade, se transforma em angústia, em pressão... Valorizemos mais o amigo que nos socorre, que se interessa por nós, que nos escreve, que nos telefona para saber como estamos indo... A amizade é uma dádiva de Deus... Mais tarde, haveremos de sentir falta daqueles que não nos deixam experimentar solidão!

O exemplo é uma força que repercute, de maneira imediata, longe ou perto de nós... Não podemos nos responsabilizar pelo que os outros fazem de suas vidas; cada qual é livre para fazer o que quer de si mesmo, mas não podemos negar que nossas atitudes inspiram atitudes, seja no bem quanto no mal.

Fico triste quando alguém me ofende, mas, com certeza, eu ficaria mais triste se fosse eu o ofensor... Magoar alguém é terrível!

- Chico Xavier

sábado, 14 de março de 2009

Cansaço



É preciso amar a vida e vivê-la plenamente hoje, como se não houvesse amanhã.

Mas há dias em que a vida semelha um fardo, que carregamos às costas, arrastando-o pela estrada longa e pedregosa que leva a lugar nenhum. É, então, que somos tomados pelo cansaço, um enorme e profundo cansaço, que se instala e avassala os recônditos da alma.

Andamos em círculos. De onde parece germinar a luz nova de um farol, acabamos por descobrir a velha e abusada candeia, com seu brilho mortiço e vulgar.

O dia se abre no enfrentar dos problemas de sempre, todos miseravelmente iguais. Resolvê-los não nos gratifica, apenas garante que amanhã estaremos na trincheira, outra vez, para voltar a enfrentá-los.

Uma das desvantagens de acumular muitos anos é a perda inexorável de qualquer tipo de inocência. Cada vez se torna mais dificil gozar a volúpia da descoberta de algo realmente novo, diferente, desconhecido. Tudo vai tomando um gosto de usado, de repetido e, não raro, de medíocre.

Lidar com o que é pequeno e vulgar nos torna mais cansados e desalentados. Aturamos os que chafurdam na vaidade comesinha, dispostos a descer aos porões da indignidade, em troca de minúsculas posições de prestígio e poder, enquanto nossos olhos, quase em desespero, buscam o longe, a miragem, o fascínio dos grandes desertos.

Ao cabo de dias como esses, felizes os que, ao menos, dispõem de um colo macio onde repousar a cabeça cansada e deprimida.

- Alvaro Rodrigues (agosto de 2008)
  

terça-feira, 30 de setembro de 2008

O semeador do bem

Era noite e Ele estava só.
Lobrigou, à distância, as muralhas de uma grande cidade e para ela se dirigiu. E, quando se aproximou, ouviu o tropel de folguedos, o alarido da alegria e o ruído ensurdecedor de muitos alaúdes.
Ele bateu no portão e os guardas abriram-lho.
E Ele viu uma casa de mármore, com belas colunas de mármore à sua frente. 
Ele entrou na casa e cruzou o vestíbulo de calcedônias e atingiu o salão de festins.
E viu, estendido sobre um leito de púrpura marinha, um homem cujos cabelos estavam coroados de rosas vermelhas e os lábios rubros manchados de vinho.
E Ele aproximou-se do homem, por detrás, tocou-lhe as costas, dizendo-lhe:
- Por que vives assim?
O homem, voltando-se, reconheceu-o e respondeu-lhe:
- Eu era leproso e tu me curaste. Como iria viver?
Ele deixou a casa e voltou à rua. Pouco depois, viu uma mulher cujo rosto e trajes eram coloridos e cujos pés estavam recamados de pérolas. Atrás dela, cauteloso como um caçador, caminhava um jovem usando túnica de duas cores. O rosto da mulher era tão belo quanto o rosto de um ídolo e os olhos do jovem faiscavam de sensualidade.
Ele seguiu o jovem e tocando-lhe na mão indagou:
- Por que olhas para essa mulher de tal maneira?
O jovem, voltando-se, reconheceu-o e retrucou-lhe:
- Eu era cego e tu me restituiste a vista. A quem mais eu poderia olhar?
Ele correu para adiante e, tocando no vestido colorido da mulher, perguntou-lhe:
- Não há outro caminho para trilhares que não seja o do pecado?
A mulher voltou-se e, reconhecendo-o, replicou-lhe:
- Tu perdoastes meus pecados e este é um caminho agradável.
Ele, então, afastou-se da cidade. E, quando a deixava, deparou-se-lhe, à beira da estrada, um homem a chorar. Ele apiedou-se do homem e, tocando nos seus cabelos, perguntou-lhe:
- Por que choras?
O homem ergue os olhos e, reconhecendo-o, respondeu-lhe:
- Eu estava morto e tu me ressuscitaste. Que farei agora senão chorar?
(Conto de Oscar Wilde)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Post Scriptum


Quando nosso navio parte de Honolulu, penduram-nos ao pescoço "leis", que são grinaldas de flores, levemente odoríficas. O cais regurgita de povo e a banda toca uma derretida melodia havaiana. Os passageiros atiram serpentinas aos que ficam e a amurada do navio engalana-se toda com finas fitas de papel de cor alegre. Depois, quando navio começa a se afastar do porto, as serpentinas rompem-se com um leve estalido.

É como a ruptura dos laços humanos.

Homens e mulheres são momentaneamente unidos por uma fita de papel de cor alegre. Depois, a vida os separa e as serpentinas rompem-se com um leve estalido. Por algumas horas, seus fragmentos tremulam ao longo do casco, até que o vento os leva. As flores de nossa grinalda murcham e seu aroma se torna opressivo. Então, jogamo-las ao mar.
  
(W. S. Maugham - Post scriptum de "Histórias dos Mares do Sul")
 

sábado, 30 de agosto de 2008

O desafio do amor


"O Amor é forte como a Morte" (Cantar dos Cantares)

Os "Cantares" foram buscar no poder inexorável da Morte, a analogia para representar a força irresistível do Amor, diante da qual os humanos se sentem e se mostram frágeis, ainda quando o brilho dos olhos fale de Felicidade.

Fragilidade, medo ou receio é o que se sente diante de tudo quanto não se consegue controlar, aprisionar, dominar, seja o homem primitivo diante do fogo ou das feras, seja o homem moderno diante de frankensteins tecnológicos que ele próprio criou.

O medo de não ganhar ou o medo de perder está sempre presente na mochila do viajante que percorre a estrada do Amor. Antes, o medo de não agradar, de não conseguir conquistar o que o coração deseja; depois, o medo de vir a perder o que se lhe tornou tão caro.

Paradoxalmente, quanto maior é a certeza da conquista, maior é a temeridade de pô-la em risco, na forma de condutas tortuosas que poderão destruir o que tanto se deseja preservar. Quanto menor a (incômoda) sensação de fragilidade, maior esse deixar-se seduzir por jogos de azar.

O Amor pode ser uma dádiva (e certamente o é) mas é também um desafio, que demanda zelo, cuidados e disposição de luta, todos os dias, desde o raiar do sol até a derradeira hora da noite.

Luta contra inimigos externos mas, sobretudo, internos. Luta contra essa incrível capacidade entrópica do ser humano de fazer o mal a si mesmo, de destruir, em um minuto, o que levou anos para edificar.

Uma luta da qual poucos emergem vitoriosos, o que levou um escritor, de elevada sensibilidade, como Oscar Wilde, a proclamar:

"Todo homem mata aquilo que ama - ouçam todos.
Uns o fazem com um olhar de ódio,
outros com uma palavra de lisonja.
O covarde com um beijo,
o bravo com um punhal
"

(Da obra "A Balada do Cárcere de Reading")

- Alvaro Rodrigues (agosto/2008)

sábado, 16 de agosto de 2008

Trapalhada na Wikipédia

Recentemente, o arraial da Wikipédia lusófona ficou incrivelmente assanhado com a edição de um texto intitulado "Activismo Pró-Pedófilo" (ver aqui ) , postado por um lusitano, onde se apresentam os argumentos sustentados por um movimento existente sobretudo na Europa, genericamente denominado "Childlove Movement".

O aparecimento do texto desencadeou uma onda histérica de revolta moralista, por parte de alguns editores da Wiki, empenhados em apagar, pura e simplesmente, o "pecaminoso" texto, acusado de fazer apologia de algo ilegal (além de imoral). Houve até quem se prestasse a empreender uma cruzada, em nome da "Moral e dos Bons Costumes", batendo à porta das Páginas de Usuários dos editores, pedindo voto para a eliminação.

Ocorre que o texto não é apologético, como podemos constatar acionando o link acima. Ele apenas informa sobre algo que existe (gostemos ou não), enquadrando-se, por conseguinte, nos propósitos enciclopédicos da Wikipedia. Tanto assim é que, ao contrário do acanhado texto em português, o assunto é tratado com abundância de palavras na Wiki anglófona (ver aqui), onde até se exibem links e imagens de símbolos de organizações que defendem a revisão dos conceitos e do tratamento legal aplicados à Pedofilia. E não é muito diferente o que se encontra nas Wikipedias de língua francesa (ver aqui) e espanhola (ver aqui).

A ausência de um motivo indiscutível para a remoção do texto "herético", gerou um impasse do qual nossa comunidade wikipediana não soube sair de um modo inteligente. Em meio à histeria coletiva, mal se ouviram as poucas vozes sensatas que se apresentaram.

O tema acabou sendo submetido a uma espécie de "Tribunal da Santa Wikipedia", mas os "torquemadas" lusófonos foram tão trapalhões no encaminhamento da matéria que, embora grangeando o apoio da maioria dos eleitores, não conquistaram o índice indispensável para acender a fogueira onde o texto seria queimado.

O resultado é que ele continua lá, enfeitado por um catatal de avisos e alertas, um dos quais (mais tarde removido) advertia que o conteúdo do texto "não representa a opinião da Wikipédia", como se uma enciclopédia pudesse ou devesse ter "opinião" sobre o que quer que seja.

O que ocorreu na Wikipedia, ilustra bem a dificuldade de se lidar com temas extremamente "sensíveis", de um modo equilibrado, isento e sensato. Pedofilia, drogas, aborto, eutanásia, pena de morte e casamento gay são alguns desses temas que, por sua natureza controvertida, prestam-se a ser usados como bandeiras de intolerância nas mãos de fanáticos.

- Alvaro Rodrigues (agosto/2008)

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Oi, Maiakowski

Pois é, Maiakowski, não estamos alegres, é certo ...
mas será que, por isso, precisamos nos tornar parceiros do desalento?
Somos, por acaso, neófitos, no rugir das tempestades?
Não é certo que já aprendemos que em tudo há sempre um eterno porém?
E que a força que nos arrasta para o fundo é, quase sempre, a mesma que nos traz de volta à superfície?

Sigamos, pois, em frente,
com os olhos desnudando a paisagem ...
o coração pulsando forte ...
o sangue entumescendo a vontade ...
os pés deixando rastros firmes na areia ...
a voz reafirmando, sem farsas, o homem que somos...

Que venham as tempestades...!
Haveremos de rompê-las ao meio,
como a quilha de um navio rompe as ondas.


- Alvaro Rodrigues (julho/2008)



O Belo e o Bom


O Amor é belo ...
(cantam os poetas, proclamam os enamorados).
Certamente, ele o é.
Mas, além de belo, tem que ser bom.

Para ser belo, o Amor basta-se a si mesmo.
Para ser bom, precisa da ajuda de outros.
Precisa da Amizade e da Lealdade,
do Companheirismo e da Cumplicidade,
do Querer-Bem e do Tratar-Bem.

O Amor é belo, certamente.
Mas, além de belo, tem que ser bom.
Se não for bom, deixa de ser belo.
E, ao deixar de ser belo, deixa de ser Amor.

domingo, 8 de junho de 2008

O Cristo

















Guiado por "sábios" de diferentes épocas, que o ajudam a cimentar a estrada da auto-desvalorização, o homem, exigente e intolerante para consigo mesmo, se culpa por não alcançar a Luz divina. E conclui que não a alcança por força de seus "pecados". Então, tenta redimí-los, na forma de sacrifícios e oferendas a quem, em princípio, disporia do poder de perdoá-lo e limpá-lo de suas iniqüidades.

Aqui e ali, surge alguém em quem muitos reconhecem uma resposta cósmica às suas súplicas. Há quem vá mais além, admitindo estar diante do próprio Deus encarnado. Esses homens dizem e fazem, mas disso pouco se preserva, soterrado pela teologia que se ergue em torno de sua vaga lembrança.

Houve um tempo em que um homem, chamado Jesus, viveu sobre a face da Terra. Seus pósteros chamaram-no de "Cristo".

A História, que é uma ciência, busca saber e entender quem foi Jesus e o que ele fez. Quanto ao Cristo, ela nada pode ou ousa dizer, porque ele não pertence ao mundo onde a Ciência garimpa conhecimento. Seu lugar é no interior do Homem, protagonista de um processo espiritual, que busca capturar um sentido transcendente para a vida e desvendar os mistérios de seu próprio destino.

domingo, 4 de maio de 2008

Verdade


"Não creiais em coisa alguma pelo fato de vos mostrarem o testemunho escrito de algum sábio antigo. Não creiais em coisa alguma com base na autoridade de mestres e sacerdotes. Aquilo, porém, que se enquadrar na vossa razão e, depois de minucioso estudo, for confirmado pela vossa experiência, conduzindo ao vosso próprio bem e ao de todas as outras coisas vivas : A isso aceitai como Verdade. " ( Sidarta Gautama, 500 A.C.)


Supostamente, todo ser humano busca conhecer a verdade e agir em consonância com ela.Mas ainda que possamos conceber a existência de uma Verdade Absoluta, a que conhecemos é relativa, o que a torna, em última instância, pessoal.
Há a minha verdade e há a sua verdade, que não são necessariamente iguais, mesmo que ambas sejam construídas com alguns ingredientes de aceitação geral. A razão, o estudo, e a experiência, hão de ser as ferramentas necessárias para o alcance da (minha) verdade.
Necessárias porém não suficientes.
Visto que tenderei a pautar minha vida à luz dessa verdade, importa certificar-me de que ela conduz ao meu próprio bem e ao daqueles que se encontram comigo na estrada desta vida.Se assim não for, não devo aceitá-la como (minha) verdade, mesmo que seja, tecnicamente, verdade.
Gautama era um sábio!

quinta-feira, 1 de maio de 2008

A hora final













O escritor inglês, filósofo e matemático, Bertrand Russel, do alto de seus quase noventa anos, escreveu estas palavras, para mim inesquecíveis:
"Penso que quando eu morrer, eu me putrefarei e nada em mim sobreviverá. Não sou jovem e amo a vida, mas desdenharei os calafrios de terror ante a idéia da aniquilação total. A felicidade não é absolutamente menor e menos verdadeira apenas porque deve, necessariamente, chegar a um fim, e tampouco o pensamento e o amor perdem seu valor pelo fato de não poderem ser eternos."

Agnóstico convicto, Russel morreu como viveu e sempre foi fiél às suas convicções, inclusive quando a morte se apresentou diante dele. Aliás, esse era um dos motivos que me faziam admirá-lo e, embora não partilhasse de seu agnosticismo, isso não me impedia de ter sempre seus livros à cabeceira de minha cama. Pode-se mesmo dizer que, naquele tempo, "eu não dormia sem ele". O trecho que acima transcrevi faz parte de um conjunto de ensaios, publicado sob o título de um deles: "Por que não sou cristão". E desse trecho, eu destaco a afirmação de Russel, à qual ele também foi fiél, de que desdenhava os "calafrios de terror" ante a idéia da morte.

Quando somos jóvens, ainda que saibamos que podemos morrer no dia seguinte, a morte é vista e pensada como algo que, embora inevitável, projeta-se em um futuro incerto e, principalmente, distante. Mas quando atingimos uma idade em que, no mínimo, sabemos que já vivemos mais do que ainda haveremos de viver, a imagem da morte se torna mais próxima e mais concreta.

Ao contrário de Russel, penso que, quando eu morrer, o que haverá de se putrefazer será apenas o meu corpo físico. Aquilo que realmente sou continuará vivo, inclusive com o mesmo modo de pensar e de sentir. O que chamamos de morte é tão somente o fim de um dos muitos ciclos de algo incomensurável (talvez eterno): a Vida. Aqueles que, como eu, disso estão convictos, não pensam na morte como algo tenebroso.

Ocorre, porém, que entramos na morte através de um processo: o morrer. E isso é motivo de temor para muitos. Afinal, nem todos são, como Russel, absolutamente fiéis, na vida e na morte, às suas convicções. Há quem passa a vida com medo da morte, evitando pensar e falar sobre ela, e que, na hora final, se porta com a mais absoluta serenidade. Em contrapartida, há os que passaram a vida desdenhando a morte ou mesmo a desejando, mas que, ao vislumbrá-la, rendem-se ao mais completo desespero.

E quanto a mim? Como haverei de me comportar quando chegar o meu momento, sobretudo se tiver prévio conhecimento dele? A resposta é: não sei. E se não posso antecipar qual há de ser minha reação, resta-me tentar definir como é que eu gostaria que ela fosse.

Para tanto, valo-me de outra figura do passado, que também deixou coisas escritas. Não era inglês, era romano; não era filósofo, era imperador. Refiro-me a Adriano. Mesmo não sendo um pensador como Marco Aurélio, o imperador Adriano gostava de registrar os fatos de sua vida e o que pensava deles. Escreveu uma espécie de Diário, do qual, infelizmente, só nos restaram alguns fragmentos, ainda assim o suficiente para que possamos ter uma idéia razoável de suas convicções. Desses fragmentos, a escritora francesa, Marguerite Yourcenar, valeu-se para escrever "Memórias de Adriano", originalmente editado em 1951. Escritora talentosa, Marguerite (que, em minha modesta avaliação, compõe textos com o esmero e a meticulosidade com que um compositor clássico produz peças eruditas) preencheu, com sua imaginação, o que se perdeu das memórias imperiais, produzindo uma obra que simula ser uma autobiografia de Adriano.

O livro se encerra com as reflexões do imperador sobre a morte, que ele então sabe estar próxima:
"Animula, vagula blandula
Hospes comesque corporis
Quaenunc abibis in loca
Pallidula, rigida, nudula
Nec, ut sole, dabis iocos"

"Pequena alma terna flutuante
Hóspede e companheira de meu corpo
Vais descer aos lugares pálidos, duros, nus
Onde deverás renunciar aos jogos de outrora"

E conclui dizendo: "Esforcemo-nos para entrar na morte de cabeça erguida".

Penso que, como Adriano, é exatamente isso o que almejo para mim: entrar na morte de cabeça erguida.