sexta-feira, 11 de julho de 2008

MD (I)










Tornar-me Administrador de uma Lista como "Mundo em Debate" (MD), ofereceu-me a oportunidade de por em prática o que antes eu sustentava em discurso.
E fico feliz em constatar, pelos resultados colhidos, a consistência do que antes defendia e ainda defendo.
Respeito e consideração aos membros do Grupo, são as palavras-chaves do processo, o eixo de conduta sobre o qual se assenta o modelo de gestão implantado.
Um modelo exatamente oposto ao que vivenciei em outro ambiente virtual (a Wikipedia), onde não consegui ficar além de alguns pouquíssimos meses.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Olhando nos olhos da vida

O tempo passou depressa. Tempo de viver, tempo de ser.
Muita coisa ficou pra trás ... e continua ficando.
Melhor seria que assim não fosse, mas o é ... que hei de fazer? O mar da minha história é agitado, feito de conquistas e naufrágios.
Talvez eu queira encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor... Mas a vida é real e sempre se impõe, a me dizer, a me mostrar, o que eu, talvez, não queira ver.
Gosto de olhar nos olhos da vida, mas nem sempre vejo o que me dizem. Então ... azar o meu. Eu que aprenda a ver melhor, da próxima vez.

Não quero muito. Só quero o que é meu.
Mas se é meu, quero muito. Mais que muito, quero tudo. Senão, não quero nada ... abro mão, e ponho os pés na estrada, sem olhar pra trás.

sábado, 28 de junho de 2008

Elas se foram


Nestas últimas semanas, o país perdeu duas mulheres públicas. A primeira a partir foi Ruth Cardoso, esposa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, uma intelectual com brilhante carreira acadêmica (a exemplo do marido) e que, enquanto primeira-dama, deixou a mesma imagem que a fazia ser respeitada fora dos meios palacianos: a de uma mulher culta, distinta e discreta.

Discrição é uma qualidade que aprecio, mas talvez justamente por isso, eu pouco sabia sobre Ruth, antes de FHC chegar à presidência, salvo uma pequena informação: reconhecendo em si o perfil da pesquisadora, ela decidiu, aos 19 anos (1950), cursar Filosofia na USP, contrariando a opinião de sua família. E como discrição não é incompatível com determinação, dois anos após ela já estava trabalhando no setor de RH daquela Universidade, na qual viria a exercer, por muitos anos, a função de professora, e obter seus mestrado e doutorado em Antropologia, este último em 1972.

Sua carreira bem sucedida atesta, uma vez mais, que quando nos dedicamos, plenamente, a fazer algo de que gostamos, com o qual nos identificamos, quase sempre conseguimos fazê-lo bem ... e ser reconhecidos por isso.



A segunda a partir também era uma mulher sóbria, ainda que se dedicasse a atividades menos discretas. Refiro-me à cantora Sylvinha Araújo, esposa e "partner" do também cantor, Eduardo Araujo (com quem se casou aos 17 anos, depois de 2 de namoro), ambos despontados no cenário artístico, à época da Jovem Guarda.

A simpatia era a marca registrada do casal, mas eu, que jamais fui fã das músicas que cantavam, ainda assim gostava de vê-los se apresentar em público, por conta de um detalhe: o brilho que refulgia em seus olhos, ao olharem um para o outro, durante o show, mesmo quando já acumulavam mais de duas dezenas de anos de casados.

Casamento é isso: lealdade, cumplicidade ... ser um no outro. Algo cada vez mais dificl de ser testemunhado nestes tempos acres, egocêntricos e de escassa sensibilidade, que ora vivemos.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Mateus 5,13













"Vós sois o sal da terra.
Se o sal se tornar insípido,
como se poderá restaurar-lhe o sabor?"

domingo, 8 de junho de 2008

O Cristo

















Guiado por "sábios" de diferentes épocas, que o ajudam a cimentar a estrada da auto-desvalorização, o homem, exigente e intolerante para consigo mesmo, se culpa por não alcançar a Luz divina. E conclui que não a alcança por força de seus "pecados". Então, tenta redimí-los, na forma de sacrifícios e oferendas a quem, em princípio, disporia do poder de perdoá-lo e limpá-lo de suas iniqüidades.

Aqui e ali, surge alguém em quem muitos reconhecem uma resposta cósmica às suas súplicas. Há quem vá mais além, admitindo estar diante do próprio Deus encarnado. Esses homens dizem e fazem, mas disso pouco se preserva, soterrado pela teologia que se ergue em torno de sua vaga lembrança.

Houve um tempo em que um homem, chamado Jesus, viveu sobre a face da Terra. Seus pósteros chamaram-no de "Cristo".

A História, que é uma ciência, busca saber e entender quem foi Jesus e o que ele fez. Quanto ao Cristo, ela nada pode ou ousa dizer, porque ele não pertence ao mundo onde a Ciência garimpa conhecimento. Seu lugar é no interior do Homem, protagonista de um processo espiritual, que busca capturar um sentido transcendente para a vida e desvendar os mistérios de seu próprio destino.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Cabala e Gnose


Diante da Árvore da Vida, o Homem se entrega a um processo contemplativo e dinâmico de busca, por algo indefinido mas desejado.Talvez queira entender a estrutura revelada do Universo ou, quem sabe, a própria essência de Deus, que o misticismo Mercavah propõe chamar de Revelação. Não é isso que o cabalista persegue na contemplação da Árvore, ainda que a Cabala seja também uma tentativa de planificar o Universo, em termos místicos? De qualquer forma, não deixa de ser um processo de tomada de consciência.
E, se assim for, isto é Gnose.

Cabala é gnose judaica, com seu mito da criação e seus conceitos mágicos, já perceptíveis nos primeiros Hassidin. Os sábios cabalistas afirmam que Kether e Malkuth são uma só manifestação, que são opostos complementares, tendo um elementos do outro. Mas ainda que suas características sejam iguais, suas manifestações são diferentes; podem até ser opostas. Então, à luz de tal conceito, não seria correto dizer que o homem primordial - o Adam Kadmon - é também uma expressão do Logos, que os gnósticos cristãos relacionam ao Cristo?

Cabala pode ser entendida como sinônimo de "receber" um algo que, para ser apreendido, há de ser sentido, e isso nos remete à via gnóstica do coração (Bhakti), que a tradição cristã preservou como um processo contemplativo, mas que, quando associado à prece, pode conduzir ao êxtase, como o experimentado por Francisco de Assis.

Pela vertente zotheriana, esse processo gnóstico leva-nos ao Egito.Aliás, Zothy (ou Sothy) é o nome egípcio para a estrela Sírius, alfa da constelação do Cão Menor. Há quem diga que Sírius se relaciona com Typhon, que entre os mitos antigos do Egito seria a mãe do deus Seth. Podemos especular muito mais sobre as conseqüências místicas dessa afirmação. Podemos até concluir que os mais antigos egípcios acreditavam que Typhon seria a mãe de Rá e Seth, diferentemente. E se Rá (o sol) é filho de Zothy, dá-se que Zothy estaria em Kether e o Sol seria Tiferet. Na Cabala, toda a luz de Tiferet provém de Kether. Por isso, o Cristo é normalmente associado a Tiferet, ou oSol, ou o Filho.

Segundo a definição zotheriana, a manifestação do conhecimento viria diretamente ao homem, proveniente de Kether. Conhecimento como sinônimo de luz, ou a luz do conhecimento. A luz de Kether incidindo diretamente sobre o homem, sem obstáculos.
Isto é Gnose.

É preciso não esquecer que o processo gnóstico zotheriano, apesar de contemplativo, não é passivo. Tem que haver a iniciativa da comunhão que dinamiza o pentagrama invertido (apropriado por satanistas) - expressão simbólica do "faça-se conforme Sua vontade" - porém que requer o empenho de nossa própria vontade para que a luz se irradie plenamente. Uma jornada que parte do Inconsciente para chegar ao Consciente, mas que retorna quando o Consciente adquire a consciência do Inconsciente e vitaliza sua manifestação. Não há oposição, não há confronto. Há integração, dimensões que se complementam.

Isso se proclama mais explicitamente na via gnóstica voduísta, tida como manipuladora das chamadas energias infernais. Algo assim como chegar à luz usando instrumentos das trevas. Dizem que é um processo perigoso, por colocar o homem diante de sua própria sombra, de sua lua negra ... de sua Lilith.

Se é verdade que o gnóstico é alguém que recebe o conhecimento(Gnose) que desce ao seu encontro, proveniente de esferas superiores, induzindo-o a um estado contemplativo, é também verdade que ele precisa se elevar para receber esse conhecimento. Em algum ponto dessa estrada, dá-se o encontro daquilo que desce com aquilo que sobe. E não será esse encontro inexorável, fruto de uma atração irresistível entre duas dimensões que se buscam e se acoplam, até por serem, na essência, iguais?
Como proclama a tradição hermética: O que está em cima não é como o que está embaixo?

Estudando ou não a Cabala, somos todos, mais ou menos, gnósticos.

domingo, 25 de maio de 2008

Cântico Negro



"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
Há nos meus olhos ironias e cansaços,
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre da minha mãe.
Não, não vou por aí!
Só vou por onde me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que eu faça não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe, a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide!
Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras e tratados de filósofos e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
(José Régio)

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Coisas da Vida















Ele a conheceu e a namorou nos seus tempos de universitário, em plena ditadura militar brasileira.Ela era militante da esquerda estudantil, marxista-leninista de carteirinha, vermelha até o diabo dizer basta, do tipo que só ia pra cama mediante atestado ideológico.
Ficava puta da vida quando ele a puxava para si, dizendo: "Vem cá, meu pedaço de materialismo dialético!". Protestava, mas terminava se entregando.

Não estavam apaixonados; apenas se gostavam, se entendiam e se curtiam.Passavam a maior parte do tempo juntos discutindo política: a revolução cubana, o imperialismo americano, a Guerra do Vietnã, a Primavera de Praga, o livrinho vermelho de Mao.

Sexo apenas de vez em quando, e isso quando conseguiam descolar um espaço adequado, como o apartamento de um amigo.
No futuro, ele viria a lamentar não ter investido um pouco mais em Eros, porque ela, quando despida de sua jaqueta cheia de bottons revolucionários, revelava-se uma fêmea ardente e integral, para quem não havia ... isso-eu-não-quero, isso-eu-não-gosto, isso-eu-não-faço.

Um dia, o namoro acabou - ele já nem lembra como ou porque.
Soube, depois, que ela conheceu um pesquisador suiço, que viera estudar a flora amazônica, e que se encantou com seus olhos claros em tez morena, combinação incomum que a dotava de uma certa beleza exótica.Acabaram se casando e foram viver na Europa.

E assim, enquanto Che Guevara morria na selva boliviana, sepultando as esperanças de uma revolução continental, ela se acomodava a uma existência pequeno-burguesa no país que é um dos ícones do capitalismo financeiro internacional.
Coisas da vida.

domingo, 4 de maio de 2008

Orfandade

Hoje eu voltei, de novo, ao local onde, pela última vez, olhei para os seus olhos fechados, que não mais me podiam ver.
Hoje eu fui lá, lembrando aqueles terríveis momentos em que sua cor, devagar, foi tomando o tom mais triste de nosso irreversível adeus.
Hoje eu estive lá, e me sentei diante daquele mármore, vergado sob o peso da imensa orfandade que carrego em meu peito, desde a nossa despedida.
Hoje eu voltei lá, para lhe repetir o que lhe disse quando a levaram de mim:
Mãe querida, até um dia!

Verdade


"Não creiais em coisa alguma pelo fato de vos mostrarem o testemunho escrito de algum sábio antigo. Não creiais em coisa alguma com base na autoridade de mestres e sacerdotes. Aquilo, porém, que se enquadrar na vossa razão e, depois de minucioso estudo, for confirmado pela vossa experiência, conduzindo ao vosso próprio bem e ao de todas as outras coisas vivas : A isso aceitai como Verdade. " ( Sidarta Gautama, 500 A.C.)


Supostamente, todo ser humano busca conhecer a verdade e agir em consonância com ela.Mas ainda que possamos conceber a existência de uma Verdade Absoluta, a que conhecemos é relativa, o que a torna, em última instância, pessoal.
Há a minha verdade e há a sua verdade, que não são necessariamente iguais, mesmo que ambas sejam construídas com alguns ingredientes de aceitação geral. A razão, o estudo, e a experiência, hão de ser as ferramentas necessárias para o alcance da (minha) verdade.
Necessárias porém não suficientes.
Visto que tenderei a pautar minha vida à luz dessa verdade, importa certificar-me de que ela conduz ao meu próprio bem e ao daqueles que se encontram comigo na estrada desta vida.Se assim não for, não devo aceitá-la como (minha) verdade, mesmo que seja, tecnicamente, verdade.
Gautama era um sábio!

Para Iso




Esta jóia
é pra você,
querida amiga,
portadora
do archote.

Tome-a,
antes que
alguma
aventureira
o faça.

Valdemir

Simples, conciliador, com um permanente brilho amistoso no olhar.
Ele é o paraense Valdemir Costa, desenhista, terapeuta holístico, ciclista, místico e, acima de tudo, poeta.
Autor de dois livros, ambos rimados.
O primeiro foi Elo de Rimas, onde se encontram suas poesias romântico-sensuais.
O mais recente é Poesias do Oráculo Maia, no qual ele poetiza cada Selo do Sincronário Oracular daquele que muitos chamam de "Calendário da Paz", a cujo estudo se dedica.
Como todo ser humano, Valdemir tem lá seus defeitos, mas nenhum deles é capaz de fazer sombra à maior de sua virtudes: a de ser o tipo de amigo que muitos desejam e poucos (como eu) tem o privilégio de possuir.

[Texto importado do sítio "Kaderno"]

sábado, 3 de maio de 2008

O Filho do Pai


Os Evangelhos relatam que, na tentativa desesperada de salvar Jesus, em quem não via nenhuma culpa, Pilatos valeu-se de um costume judaico, vigente durante a Pessach (páscoa), de libertar um prisioneiro condenado à morte, oferecendo ao povo a escolha entre Jesus e Barrabás.

Em João, Barrabás é identificado como um "salteador"; em Marcos e Lucas, ele foi condenado por ter matado alguém durante uma "sedição", e em Mateus, diz-se apenas que ele era "um preso bem conhecido".

O problema é que em nenhuma literatura hebraica, inclusive no Talmud, é possível encontrar qualquer menção à prática de libertar um prisioneiro durante a Pessach. Não se conhece nenhum caso de alguém que tenha sido beneficiado por essa suposta tradição. Tudo leva a crer, portanto, que ela não existia. Também não há qualquer fonte que nos diga que os romanos libertassem prisioneiros condenados, em respeito à tradição religiosa dos judeus ou de qualquer outro povo integrante do Império. E note-se que possuímos abundante literatura sobre o Direito Romano e seu "código processual". Esse Direito era rígido: uma vez decretada a condenação do prisioneiro, somente o Imperador detinha o poder de anulá-la ou comutar a sentença. No caso de Jesus, nem lhe cabia "apelar para César" (como Paulo de Tarso o fez), porque ele não era cidadão romano.

Resumindo, nem na prática judicial romana, nem na hebraica, há qualquer referência à libertação de prisioneiros durante a Pessach ou qualquer outra data religiosa. Considere-se, também, que enquanto Jesus (variante mais "moderna" do antigo nome Josué) era um nome comum em sua época, não se tem referência a nenhum outro Barrabás (possivelment "bar" + "abba" = filho do pai) em toda a longa história de Israel.Por conseguinte, o Barrabás dos Evangelhos é, muito provavelmente, um personagem fictício, cuja função nos relatos da "Paixão" é acentuar a responsabilidade (culpa) do povo judeu na morte de Jesus.

Mas admitamos, por um momento, que essa prática existisse e que Barrabás foi beneficiado por ela.Em todos os relatos da execução de Jesus, menciona-se que ele foi crucificado entre dois outros condenados, descritos sumariamente como "ladrões". A incoerência começa com o fato de que os romanos não costumavam matar meros ladrões. Pelos menos, não rapidamente. A prática usual era torná-los escravos das minas ou galés de navios (onde a vida do prisioneiro tendia a ser curta). Além disso, se os dois "ladrões" eram também condenados à morte, como Barrabás, porque Pilatos não os incluiu, quando ofereceu ao povo a possibilidade de libertar um condenado? Se a prática existia, todos os sentenciados à morte haveriam de poder ser beneficiados por ela.

Por que apenas Barrabás?

[Texto extraído do sítio "O Filho do Homem"]

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Warrior















Guerreiros são pessoas
são fortes, são frágeis
Guerreiros são meninos
no fundo do peito.
Precisam de um descanso,
precisam de um remanso,
precisam de um sonho
que os tornem refeitos.

(Gonzaguinha)

quinta-feira, 1 de maio de 2008

A hora final













O escritor inglês, filósofo e matemático, Bertrand Russel, do alto de seus quase noventa anos, escreveu estas palavras, para mim inesquecíveis:
"Penso que quando eu morrer, eu me putrefarei e nada em mim sobreviverá. Não sou jovem e amo a vida, mas desdenharei os calafrios de terror ante a idéia da aniquilação total. A felicidade não é absolutamente menor e menos verdadeira apenas porque deve, necessariamente, chegar a um fim, e tampouco o pensamento e o amor perdem seu valor pelo fato de não poderem ser eternos."

Agnóstico convicto, Russel morreu como viveu e sempre foi fiél às suas convicções, inclusive quando a morte se apresentou diante dele. Aliás, esse era um dos motivos que me faziam admirá-lo e, embora não partilhasse de seu agnosticismo, isso não me impedia de ter sempre seus livros à cabeceira de minha cama. Pode-se mesmo dizer que, naquele tempo, "eu não dormia sem ele". O trecho que acima transcrevi faz parte de um conjunto de ensaios, publicado sob o título de um deles: "Por que não sou cristão". E desse trecho, eu destaco a afirmação de Russel, à qual ele também foi fiél, de que desdenhava os "calafrios de terror" ante a idéia da morte.

Quando somos jóvens, ainda que saibamos que podemos morrer no dia seguinte, a morte é vista e pensada como algo que, embora inevitável, projeta-se em um futuro incerto e, principalmente, distante. Mas quando atingimos uma idade em que, no mínimo, sabemos que já vivemos mais do que ainda haveremos de viver, a imagem da morte se torna mais próxima e mais concreta.

Ao contrário de Russel, penso que, quando eu morrer, o que haverá de se putrefazer será apenas o meu corpo físico. Aquilo que realmente sou continuará vivo, inclusive com o mesmo modo de pensar e de sentir. O que chamamos de morte é tão somente o fim de um dos muitos ciclos de algo incomensurável (talvez eterno): a Vida. Aqueles que, como eu, disso estão convictos, não pensam na morte como algo tenebroso.

Ocorre, porém, que entramos na morte através de um processo: o morrer. E isso é motivo de temor para muitos. Afinal, nem todos são, como Russel, absolutamente fiéis, na vida e na morte, às suas convicções. Há quem passa a vida com medo da morte, evitando pensar e falar sobre ela, e que, na hora final, se porta com a mais absoluta serenidade. Em contrapartida, há os que passaram a vida desdenhando a morte ou mesmo a desejando, mas que, ao vislumbrá-la, rendem-se ao mais completo desespero.

E quanto a mim? Como haverei de me comportar quando chegar o meu momento, sobretudo se tiver prévio conhecimento dele? A resposta é: não sei. E se não posso antecipar qual há de ser minha reação, resta-me tentar definir como é que eu gostaria que ela fosse.

Para tanto, valo-me de outra figura do passado, que também deixou coisas escritas. Não era inglês, era romano; não era filósofo, era imperador. Refiro-me a Adriano. Mesmo não sendo um pensador como Marco Aurélio, o imperador Adriano gostava de registrar os fatos de sua vida e o que pensava deles. Escreveu uma espécie de Diário, do qual, infelizmente, só nos restaram alguns fragmentos, ainda assim o suficiente para que possamos ter uma idéia razoável de suas convicções. Desses fragmentos, a escritora francesa, Marguerite Yourcenar, valeu-se para escrever "Memórias de Adriano", originalmente editado em 1951. Escritora talentosa, Marguerite (que, em minha modesta avaliação, compõe textos com o esmero e a meticulosidade com que um compositor clássico produz peças eruditas) preencheu, com sua imaginação, o que se perdeu das memórias imperiais, produzindo uma obra que simula ser uma autobiografia de Adriano.

O livro se encerra com as reflexões do imperador sobre a morte, que ele então sabe estar próxima:
"Animula, vagula blandula
Hospes comesque corporis
Quaenunc abibis in loca
Pallidula, rigida, nudula
Nec, ut sole, dabis iocos"

"Pequena alma terna flutuante
Hóspede e companheira de meu corpo
Vais descer aos lugares pálidos, duros, nus
Onde deverás renunciar aos jogos de outrora"

E conclui dizendo: "Esforcemo-nos para entrar na morte de cabeça erguida".

Penso que, como Adriano, é exatamente isso o que almejo para mim: entrar na morte de cabeça erguida.