sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Gênio de concreto



Oscar Niemeyer é um dos símbolos (hoje diríamos, "ícones") culturais de minha geração. Um monumento do qual partilhamos a glória e que nos faz sentir orgulhosos de ser brasileiros.

Seu olhar distante e prescrutador, sua voz morna, pronunciando cada palavra separadamente (que o tempo foi tornando ainda mais pausada), podem enganar o observar incauto, que talvez não perceba, por trás delas, a firme determinação de um homem que sempre se manteve irredutivelmente fiel às suas convicções.

Marxista-leninista "de carteirinha", seu discurso político é, ainda hoje, exatamente o mesmo que um comunista fazia na metade do século XX - o que lhe confere uma certa condição anacrônica. No correr dos anos 80, quando Luís Carlos Prestes já pouco representava em nosso cenário de possibilidades políticas, lí uma entrevista dele onde, referindo-se a Prestes, ele não relutava em afirmar: "
Para mim, ele é o que sempre foi: o nosso Cavaleiro da Esperança" (referência ao título de um livro de Jorge Amado.

Niemeyer é um homem simples, que sempre negou a si mesmo a condição de gênio que os outros lhe atribuiram. Ao lhe indagarem sobre sua obra, ele responde, quase sempre: "
Eu apenas tiro aproveito das possibilidades maleáveis do concreto".

Ora, o que é um gênio senão aquele que sabe, melhor que os outros, identificar e aproveitar as "possibilidades" do meio em que atua?

Muitas são as obras que sua inteligência iluminada produziu, ainda que nem todas possam ser consideradas "geniais". Há mesmo quem não aprecie algumas delas. Em minha terra, Belém, é dele o "
Monumento da Cabanagem", que se insere no conjunto de suas "obras menores". Jocosamente, alguns paraenses referem-se ao monumento como "Niemeyer de porre".

A primeira vez que visitei Brasilia, mais do que os prédios da Praça dos 3 Poderes, eu quis ver de perto a igreja e, principalmente, o Memorial JK, então recém inaugurado. Neste, experimentei uma emoção que até hoje se mantem pulsante em mim. Foi na sala do esquife. Aqueles espaços amplos (para receber muitos visitantes), aquela luz mortiça, mal refletida nas paredes de granito negro, ovaladas e absolutamente nuas... como nua é toda a sala. Nada, além do esquife imponente, assentado no centro, e tendo apenas uma inscrição: "O Fundador". No silêncio daquele lugar prenhe de evocações, parece que se ouve o uivo distante do Tempo, ecoando na Eternidade.

Hollywood fabricou seu "Oscar" - uma estatueta para premiar os melhores do Cinema - que cineastas brasileiros, de mentalidade colonizada, aspiram um dia ganhar.
Não precisamos da estatueta yankee.
Temos um "Oscar" vivo: temos Oscar Niemeyer.
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(Alvaro Rodrigues/2008). Texto publicado, originalmente, em "Cultura & Humanismo"
http://culturahumana.ning.com/group/oscardaarquitetura
 
  

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Poema egípcio

 Até onde se sabe, foi no período do Novo Império que surgiram os primeiros poemas de amor egípcios. Evidentemente, eles não tinha a forma lírica que nós conhecemos, nem eram rimados. Talvez tivessem um "ritmo", mas é difícil saber, porque desconhecemos qual era a pronúncia real da língua.
A linguagem era simples e direta, retratando a fala de um ou outro dos amantes, ou de ambos alternadamente, ou ainda de uma terceira pessoa, o "poeta". O poema seguinte, escrito por volta de 1300 a.C.,  faz parte do Papiro Harris 500, guardado no British Museum:

 
Ele:
É uma bebida inebriante para mim o ouvir a tua voz,
oh, magnífica do meu coração.
Vem. É a hora da eternidade que nos chega.

Ela:
Meu coração fica em suspenso quando estou em teus braços,
oh, dono do meu corpo,
e tu fazes aquilo que se espera.
Oh, sim, é doce a hora da eternidade.